terça-feira, 22 de julho de 2014

Behaviorismo radical - o conceito de mente

          Este é um texto meu onde tento explicar a visão comportamental do conceito de mente. A questão é filosófica e causa debates entre cognitivistas e comportamentais. Na prática clínica as duas teorias podem trabalhar lado a lado, mas nos meios acadêmicos elas estão em lados opostos. O debate não é simples e se você é uma pessoa que quer saber mais sobre essa questão tento aqui resumir essa "briga". 

“Não acredito que cunhei o termo comportamentalismo radical, mas quando me perguntam o que entendo por isso, digo sempre “a filosofia da ciência do comportamento tratado como um assunto em seu próprio direito, longe das explicações internas, mentais ou fisiológicas” (Skinner, Recent Issues in the Analysis of  Behavior, 1989, p. 122.)
           
B. F. Skinner


            Na história da psicologia, e especificamente na história do Behaviorismo, verificam-se duas “vertentes”: o que é conhecido como Behaviorismo Radical (“definido” por Skinner) e o Behaviorismo Metodológico que tem suas origens no positivismo lógico. A diferença fundamental dessas vertentes é a consideração pelos eventos mentais. O behaviorismo Radical não nega a introspecção, pensamentos e sentimentos, porém questiona a natureza do que é conhecido e sentido. O Behaviorismo Metodológico considera que aquilo que não pode ser visto, nem medido não pode ser compreendido cientificamente, ou seja, reduz operações mentais em discriminação de estímulos e enfatiza apenas os eventos antecedentes externos.  Uma análise mais apurada pode levar ainda a compreensão de que só pode haver comportamentalismo se for radical, porém a intenção dessa diferenciação entre Radical e Metodológico é apenas apresentar a divergência em relação à consideração de processos mentais.
            A partir desse primeiro esclarecimento, é possível voltar à atenção para história da psicologia, e mesmo da filosofia, para compreender porque Skinner afirma que se deve tratar a filosofia da ciência do comportamento como assunto em seu próprio direito. Cabe ressaltar que nesta citação o comportamento é o foco de atenção e não a mente.
             O primeiro ponto a ser trabalhado é o da mente. Existe ou não existe? Deve ser investigada? A mente é uma estrutura e explica a natureza do homem? Para Skinner estas não são perguntas relevantes e é necessário um afastamento de tais explicações internas. Porém, a questão da existência da mente acompanha a filosofia como um problema desde os filósofos gregos.  As teorias sobre a natureza do homem de Sócrates, a teoria das idéias de Platão e a metafísica de Aristóteles parecem descobrir a mente referindo-se aos estados internos. A mente aparece como imortal, incorpórea e como algo que habita o corpo. Posteriormente essa idéia torna-se mais elaborada e cogita-se a existência de um mundo terrestre, habitado pelo corpo e um mundo celeste, habitado pela mente ou alma.  Com o Neoplatonismo chega-se a idéia de que o corpo é mau e o espírito bom. Boécio (480 -524) lança o questionamento: “as coisas existem realmente ou se só se encontram na mente?”.
Por volta de 1200 com pensadores como Duns Scotus, Guilherme de Occam são lançadas as bases para o empirismo, ou seja, a lógica é análise de termos científicos e a ciência é sobre as coisas”.  A partir de 1500 Francis, Bacon, Newton, Descartes passam a enfatizar o estudo empírico, porém continua a questão da existência da mente e a dicotomia mente-corpo.
            Com o positivismo a mente humana sai de um estado teológico, passa por um estado metafísico para finalmente chegar a um positivo. Só por volta de 1800 é que surgem Pensadores como Charles Darwin - não exatamente com a questão da evolução da mente, mas das espécies – e finalmente o pragmatismo americano com Peirce, e William James: “as idéias só se tornam verdadeiras enquanto nos ajudam a estabelecer relações satisfatórias com outras partes de nossa experiência.”
            A história da psicologia, sendo construída paralelamente a da filosofia, apresenta questionamentos semelhantes: a existência da mente e, além disso, a existência da mente como matéria ou substância. O mentalismo voltou-se para existência de uma mente que explica, que é causa e tem funcionamento próprio e estruturado. A mente é que precisa ser compreendida porque existe e determina.
            Já o Behaviorismo, tanto radical como metodológico, enfatizaram o ambiente e o comportamento como foco de estudo.  John B. Watson (1878-1958) estudou o comportamento como ajustamento, hábito ou ato. Desconsiderou totalmente os estados mentais e reduziu o comportamento a um mecanicismo baseado na relação estímulo–resposta. Watson decompôs os hábitos em reflexos e defendeu uma explicação fisiológica. Com isso distanciou-se do mentalismo e aproximou-se do fisicalismo. Ou seja, os fenômenos fisiológicos são fenômenos físicos. Apesar de ter sido reducionista, Watson expôs uma complexidade (ainda que cartesiana, mecânica) no entendimento do comportamento. Neste ponto o Behaviorismo de Watson simplesmente ignora a questão da existência ou a compreensão de uma mente. Considera um corpo físico e a suas respostas fisiológicas ao ambiente.
            Depois de Watson, Edward C. Tolman (1886-1959) modifica a noção de organismo. Os organismos possuem propriedades que emergem de eventos e estados fisiológicos, mas não são redutíveis a esses. Existe concordância com a noção de ajustamento, porém é um ajustamento complexo que envolve aprendizagem com superação de problemas e o alcance de metas. Faz uma análise descritiva do comportamento, mas também cartesiana. Tolman foge do fisicalismo, mas acaba aproximando-se do mentalismo. Suas explicações sobre as propriedades imanentes ao comportamento ficaram paradoxais e necessitavam de um uma explicação que se aproximava da fenomenologia (teorias mentalistas). Chega-se a pensar na idéia de mente como instrumento. Ainda que investigasse o comportamento e suas propriedades, bem como a relação entre essas propriedades, Tolman definiu mente como experiência. Parte desta definição e aproxima-se do conceito de mente como substância.
            Finalmente chega-se em B. F. Skinner (1904 -1990) e sua teoria consequencialista do comportamento. Skinner não era nem materialista como Watson, nem mentalista como Tolman. Skinner busca na relação comportamento-ambiente a compreensão para o próprio comportamento, ou seja, um comportamento gera conseqüências que por sua vez geram novos comportamentos que geram novas conseqüências e assim sucessivamente. A este comportamento reforçado pelo ambiente Skinner da o nome de operante. Entretanto, nem todo comportamento é reforçado pela conseqüência que produz. Então existe uma seleção de comportamento não pelo reforçamento, mas por suas conseqüências naturais. A isso Skinner chama de modelo de seleção por conseqüências – comportamentos que permitem sobrevivência são fortalecidos e comportamentos que produzem conseqüências reforçadoras também são fortalecidos. Para Skinner existe a questão da seleção natural (comportamento fortalecido naturalmente), o comportamento operante (reforçado pelo ambiente) e práticas culturais que são mantidas pelos indivíduos em sociedade.
            Em Skinner não aparece uma questão relacionada à existência e descrição de uma mente, pois o que existe e determina é o comportamento. A mente não é uma questão porque ela é entendida como “parte” do comportamento. Introspecção, pensamento, sentimento e outros processos internos que seriam propriedades da mente para muitos filósofos, em Skinner são “coisas” que emergem do comportamento e é este que deve ser compreendido e analisado como origem e conseqüência.
            Após esta investigação da mente, finalmente pode-se compreender a citação: o comportamento tratado em seu próprio direito. É assim colocado porque significa justamente a sua definição. Trata-se de identificar e investigar aquilo que de fato pretende-se compreender. Com a teoria relacionista de Skinner o objeto de estudo é o comportamento, diferentemente de Watson (fisicalismo) e Tolman (mentalismo) que, mesmo tendo estudado o comportamento, chegam a uma “base” que os distancia do comportamentalismo.
            Skinner rompe com a discussão da existência de uma mente, rompe com a dicotomia mente-corpo, já que se não existe mente não há separação e, portanto, não há um problema. Este é o ponto fundamental que está anunciado na citação – a mudança de percurso do objeto e da forma de estudo das pesquisas científicas futuras, pois o comportamento é complexo e não pode ser reduzido a explicações simples ou duvidosas. Existe Mente? Existe Corpo? Há o comportamento se manifestando tanto em ações como em estados internos. São esses comportamentos que possibilitam a existência desses estados internos, logo comportamentos devem ser analisados. O corpo como organismo fisiológico deve ser estudado pela etologia e também deve focar a questão das conseqüências. As diferentes manifestações culturais deve ser objeto de estudo da antropologia e também deve considerar as conseqüências.
            A afirmação da não existência de uma mente substância não significa dizer que não existam processos internos. Significa dizer que todo o processo passa pela compreensão da análise do comportamento. Isto justifica também a explicação inicial sobre a distinção entre Behaviorismo Radical e Behaviorismo Metodológico, já que a consideração por estados internos –  entendido como relativos ao comportamento - é um posicionamento exclusivo do Behaviorismo Radical.
            Esta nova forma de abordar o problema pode parecer, à primeira vista, com uma interpretação precipitada um abandono do problema. O que pode fascinar na leitura da realidade de Skinner é a ênfase no comportamento como origem e conseqüência. O que pode causar dúvidas e estranhamento na leitura da realidade de Skinner é uma suposta simplicidade no que este entende por comportamento. Esta suposta simplicidade nada mais é do que uma leitura precipitada que deixa de compreender que Skinner ao focar o comportamento como atividade complexa e dependente de relações também complexas com o ambiente não reduz, mas ao contrário amplia a compreensão do homem.
            Sua citação aponta para o foco de estudo e coloca justamente um alerta contra reducionismos fisiológicos ou mentalismos. Behaviorismo é filosofia da psicologia, ou seja, filosofia da ciência do comportamento humano.
É interessante ressaltar que o que é necessário ser descoberto é aquilo que conduzirá a mudanças tanto em indivíduos como nas sociedades, pois mesmo que a filosofia e a psicologia pretendam estudar temas de difícil definição e compreensão, fica a questão: a evolução na ciência depende de questionamentos direcionados e bem formulados que, naturalmente, representem melhor compreensão dos problemas e uma probabilidade de modificação de situações indesejáveis?
            Sendo assim, por mais instigante que seja a dúvida sobre a existência de uma mente, onde se poderia chegar com tal questão? Qual o real benefício desse conceito para a humanidade? Neste sentido a questão do Skinner parece mais direcionada, mais definida, mais útil aos indivíduos e a sociedade e tão complexa quanto à questão dos mentalistas. Não exclui, apenas modifica a abordagem do tema. Engloba um conceito amplo em outro ainda maior, mas provavelmente mais elucidativo.


Autor: Rosana Portes de Miranda – Especialista em Psicologia Clínica

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Liderança: uma utopia desejada

Em homenagem ao saudoso educador e gestor Rubens Portugal, vou postar textos escritos e trabalhados em Faxinal do Céu-Pr nos eventos chamados PROGEST - Programa de Aprimoramento da Gestão na Educação.

Nesses eventos direcionados aos professores e gestores de escolas públicas circulou muito conteúdo importante que não pode deixar de ser compartilhado. Um momento incrível de reflexões e debates sobre educação e uma equipe fantástica de estudantes e profissionais reunidos para o aprimoramento da educação da escola pública. Um tempo que não volta mais, mas que deixou marcas profundas de um trabalho em equipe verdadeiro e intenso. 

 Auditório Jean-Jacques Rousseau- Faxinal do Céu - Pr


  

Este primeiro texto da série aborda o tema liderança. Para abordar o assunto, Rubens Portugal descreve o próprio processo que ele comandava no Instituto Rubens Portugal. Participei dessa equipe e posso garantir que a sabedoria na arte de coordenar pessoas foi uma das maiores habilidades desse educador. Com uma linguagem simples e didática ele explica conceitos importantes sobre liderança e coordenação de equipes.


Escrito em 15.09.2002

LIDERANÇA NO IRP (Instituto Rubens Portugal): uma utopia desejada

RUBENS PORTUGAL

Pessoas que nos viram trabalhando em Faxinal do Céu disseram que se admiravam do modo como nós funcionávamos coletivamente. Um chegou a dizer que estando dormindo na mesma casa que eu, nunca viu o telefone me chamar para alguém pedir instruções durante a plena realização de um seminário Progest.

Eu costumo dizer para mim mesmo que se alguma obra eu estou realizando, esta é exatamente a forma de trabalhar desta nossa equipe do IRP. No entanto, só poderei festejar se um dia ficar provado que nós mesmos aprendemos os segredos dessa realização, conquista ou obra.

Em outras palavras, valorizo o aprendizado dentro de cada um dos integrantes da equipe do IRP.  Valorizo a lição e não apenas o feito.

QUEM MANDA EM NÓS É A   “DONA LÓGICA”

Construímos soluções coletivamente. Durante o planejamento e a preparação de qualquer evento somos colocados diante de inúmeras tomadas de decisões. São momentos decisivos porque escolhemos caminhos irreversíveis. Procuramos pensar ouvindo-nos uns aos outros. Apesar de nos orgulharmos de nossa  informalidade, cada pequena ou grande tomada de decisão obedece um certo ritual:

q  perguntamo-nos qual é o objetivo que nos é mais precioso;
q  lembramos da nossa missão maior;
q  fazemos um monte de informações compartilhadas entre nós; em outras palavras, todos nós nos recordamos das informações essenciais e pertinentes; tais informações podem estar dentro da memória de qualquer um de nós; neste momento não há hierarquia nenhuma, exceto o saber de alguma coisa “que eu sei e que todos os demais precisam também saber”;   no final dessa BOLSA DE INFORMAÇÕES PERTINENTES, todos nós estamos sabendo as mesmas coisas que todos os outros;
q  à luz dos elementos acima, nosso objetivo (nosso propósito), nossa missão e diante daquele monte de dados essenciais e pertinentes, ficamos em condições de criar alternativas de ação; são as primeiras cogitações do COMO FAZER;  nós nos orgulhamos (neste instante) de nunca ir buscar fórmulas já usadas em momentos anteriores; criamos soluções novas e adequadas ao novo contexto;
q  diante de alternativas viáveis, sempre nos perguntamos sobre qual é o fator mais valioso para servir de pano de fundo para a tomada da decisão;  existe um cliente ? o quê ele deseja ? qual a mais importante exigência ou expectativa do nosso cliente ?

Penso que nós temos nos aprimorado pessoalmente em cada momento de tomada de decisão. Eu não tenho preguiça de fazer o exercício coletivo de análise do problema com a cansativa participação do maior número possível de pessoas integrantes da nossa equipe. Demora mais do que se eu determinasse que tal coisa seja feita desta ou daquela maneira, mas há um proveito de incalculável valor futuro.  Valor futuro !
NÃO DISPUTAMOS A AUTORIA DA IDÉIA

As soluções vão sendo inventadas por nós de forma participativa. Sempre que eu estou envolvido no micro-processo de tomada de decisão, policio-me no sentido de eu não impor a solução. Procuro nunca usar o argumento do poder: - “sou o mais experiente”,  “sou o dono do IRP”,  “eu pago você, portanto tem de obedecer”, “sou mais competente” etc

Costumo dizer (e agir coerentemente) que a melhor idéia nos é trazida por um anjo que  sobrevoa a nossa reunião. Dá para ouvir o rufar de suas asas. Esse anjo é cheio de caprichos. Roda sobre nós e de repente pousa em uma pessoa qualquer.  Escolhe o “anjoporto” por um critério que nunca descobrimos qual é.

O espírito irpiano de equipe se fortalece porque nenhum de nós sente ciúme da pessoa escolhida pelo anjo para ter A IDÉIA.  Nas organizações antiquadas e autoritárias, o anjo não sentia prazer em trazer a idéia. Anjo não gosta de se sentir obrigado a sempre pousar na cabeça do chefe formal. Por isso, muitas idéias que poderiam ser fenomenais não aparecem para essas organizações rígidas e, conseqüentemente, o grupo (antiquado) fica com soluções muito pobres.

Eu gosto de proclamar que esta ou aquela pessoa do nosso grupo foi escolhida pelo anjo. Não tenho certeza se todos já chegaram no IRP com o coração preparado para festejar o “anjamento” de qualquer colega.  Sei que, com o passar das semanas e meses, todos vão ficando amansados e vacinados contra a inveja.

NO NOSSO GRUPO O MELHOR NÃO É O QUE TEM O MONOPÓLIO DAS DECISÕES

Às vezes o anjo fica pousando repetidamente em uma das cabeças. Há o perigo do escolhido recorrente ficar embriagado de glória. Eu não me importo. Espero que o escolhido não vá pensar que o anjo o escolheu para líder definitivo do grupo.

O fato de uma certa pessoa ter boas idéias não o credencia para assumir o comando da tropa toda.  Eu mesmo, na condição de mais velho e de fundador do IRP não tenho sido muito agraciado pelo anjo. Sinto-me extremamente feliz em perceber que o anjo anda pousando em várias cabeças mais moças.

O que é que me faz valorizar uma pessoa quando sentada na cadeira do poder ? Eu não escolho o meu substituto ou sucessor pelo critério do anjo.

Não é o mais criativo que será forçosamente o melhor chefe. Na cultura do IRP, a melhor pessoa não é que tem tido as melhores idéias.

Eu valorizo as pessoas que se mostram capazes de contribuir para o clima criativo e não, necessariamente, as que se mostram as mais criativas.

No futuro pode acontecer do IRP ser dirigido por alguém que nunca teve uma boa idéia mas que se destacou por ser capaz de criar o AMBIENTE CHAMA ANJO.

DISCIPLINA INTELECTUAL

Que é isso ? É uma das mais valiosas grandezas possíveis da alma humana.  Você defende uma solução com todos os argumentos e com toda a garra. Depois de exaustivas análises, “DONA LÓGICA”  é chamada e nos ensina que a melhor alternativa é aquela outra que não a sua.  Não será fácil aceitar a derrota ?

No IRP não há alternativa derrotada.  O que há é que “DONA LÓGICA”  escolhe a melhor solução porque sabe o que é melhor para o IRP no futuro. A melhor solução não será escolhida para agradar o ego de nenhum de nós.  Menos ainda o meu próprio.
Grandeza abençoada é a disciplina intelectual que consiste em ser capaz de amar a solução adotada pelo IRP mesmo que não tenha sido a sua preferida durante a fase de análise decisória.

SOMOS IMUNES A UMA DOENÇA MUITO COMUM NAS ORGANIZAÇÕES: - a disputa pela imposição da decisão minha, só porque é minha

Essa doença acontece nas organizações imaturas, mal educadas. A cura dessa doença é obtida quando todas as pessoas adotam a “DONA LÓGICA”  como a nossa única chefa.

“DONA LÓGICA” quer o bem do IRP.  Seu raciocínio é todo baseado nos fatores pertinentes.  A tal doença ocorre quando um dos nossos fica com capricho intelectual: -a solução tem de ser a minha; - eles têm de engolir a minha idéia; - se não for bem do jeito que eu imagino, não me responsabilizo pelas conseqüências...

Somos imunes a esse tipo de doença porque não alimentamos disputas de egos entre nós.

Há organizações que costumam equilibrar as disputas de egos fazendo o rodízio de vitórias decisórias. Nessas instituições, há geralmente duas ou três pessoas que disputam o poder. O chefe fica em palpos de aranha e tenta agradar um de cada vez. Numa rodada decisória, a decisão agrada a pessoa detentora do ego  “A” .  Na rodada seguinte, agrada o detentor do ego  “B” .  O resultado é uma catástrofe. As decisões não foram tomadas pelo critério da “DONA LÓGICA”.  Provavelmente a organização optou por uma seqüência de decisões incoerentes entre si porque cada uma delas surgiu de uma cabeça doentia, invejosa e diferente.


Há um ditado muito repetido no mundo anglo-saxão que diz assim: “If you do everything right, you have to have success.”

A tradução literal seria simples: “Se você faz tudo certo, você tem forçosamente de ter sucesso.”

Na sociologia comparada entre a cultura anglo-saxã e a cultura brasileira que é de origem latina, esse ditado precisa ser analisado com mais profundidade.  Os “ingleses” querem dizer que você fará tudo certo se você fizer o quê a organização necessita e não o que o chefe gosta, quer, impõe ou acata de alguém só para agradar esse alguém.  Esse ditado não é popular entre pessoas de cultura latina porque nós não valorizamos o interesse coletivo tanto quanto os anglo-germânicos o fazem.

O IRP é latino ?  anglo-saxão ?  ou anglo-germânico ?

Queremos cultivar as delícias latinas e conseguir uma elevação de propósitos que nos torne um grupo grupalmente eficiente e feliz. Sem ter a dureza dos louros do norte, poderemos atingir altíssimos níveis de competência coletiva.

As reflexões acima poderão ser mais discutidas entre nós. No entanto, eu penso que será mais proveitoso se cada um dos integrantes do IRP fizer a sua auto-reflexão na intimidade. Algumas perguntas poderão nos ajudar:

q  estou contribuindo para o clima “chama anjo” ?
q  consigo festejar o pouso do anjo na cabeça de outra pessoa diferente da minha ?
q  sou capaz de  amar a decisão que “DONA LÓGICA”  tomar, mesmo que não seja a minha preferida ?
q  sou capaz de aceitar (com sinceridade) que a “DONA LÓGICA”  me obrigou a fazer uma re-significação na minha visão quanto à melhor solução ?
q  sou capaz de gostar de estar aprendendo a re-significar soluções e até dizer “oh ! realmente, aprendi mais uma...”
q  sou capaz de valorizar o meu colega que não tem tido boas idéias mas que, em compensação é um danado de um construtor de ambiente “chama anjo” ?


Vale a pena observar que o saber ouvir está sendo, neste instante, re-significado pelo leitor deste texto. E não só pelo leitor, mas também por mim que o redigi. Confesso que nunca tinha percebido tão bem como neste instante que o saber ouvir implica em analisar informações provindas de todos os meus colegas de IRP.  E essa atitude de saber ouvir será valiosa se eu prestar atenção nos diversos colegas que me trarão  contribuições decisivas.

No entanto, o colega que eu mais valorizo nos momentos críticos de tomadas de decisão é uma colega muito tranqüila que se chama “DONA LÓGICA”.

  
Rubens Junqueira Portugal
Rubens Junqueira Portugal

Auditório Jean-Jacques Rousseau - Faxinal do Céu - Pr


Como tratar a depressão?

          
Desenho de Rosana Portes - Tristeza.

        Quem sofre de depressão pergunta com freqüência se um dia conseguirá ser feliz como as outras pessoas. Respondemos que sim, porém o depressivo precisará de estratégias diferentes para enfrentar a vida. Podemos comparar a depressão com a dor crônica que se caracteriza por períodos contínuos e prolongados de dor. Quem sofre de depressão possui uma tristeza contínua e aparentemente infindável. Normalmente existem períodos de melhora, de mais energia e disposição, porém o depressivo está sempre com medo que este estado saudável não dure muito tempo. A felicidade é temperada com o medo de entristecer novamente.
Quem é depressivo não está assim por preguiça, por má vontade e nem sempre existem situações responsáveis pela tristeza como o fim de um namoro, a morte de um familiar, a perda de um emprego. Em muitos casos não existem situações de vida negativas, mas o depressivo não consegue sentir prazer e motivação para iniciar e manter suas atividades. Somente quem tem depressão sabe o quanto é difícil levantar para ir ao trabalho, brincar com os filhos, sorrir de uma piada, ler um livro, limpar a casa etc. Tarefas simples tornam-se difíceis e cansativas, pois a energia é escassa e a visão do mundo é negativa.
Muitos depressivos se queixam de conselhos como: você tem tudo que quer, deveria estar feliz! Tem tantas pessoas em situação pior! Você é jovem precisa sair e se divertir! A intenção das pessoas é boa, mas o que é difícil de compreender é quem nem sempre soluções simples resolvem casos difíceis de depressão, ao contrário, podem gerar mais angústia já que o depressivo pensa ter má vontade, preguiça e que é culpado pela sua condição de tristeza e inatividade.
As pessoas que desconhecem a diferença entre uma tristeza comum de um estado depressivo podem fazer julgamentos distorcidos acreditando que é apenas pessimismo, falta de religião, falta de relacionamentos afetivos etc. Alguns acreditam que é apenas falta de vitamina e de exercício físico e outros acham que simplesmente tomar remédios antidepressivos resolverá o problema. Para quem está sofrendo com depressão, o julgamento gera maior sensação de não ser compreendido e aceito no mundo e aumenta ainda mais a sensação de ser estranho, diferente e fracassado. Algumas situações simples podem ajudar na recuperação, mas para o tratamento de uma doença séria e complexa como a depressão não se pode prometer soluções simples e milagrosas.

Desenho Rosana Portes - Solidão

O depressivo quer melhorar, mas não consegue e para sair deste estado difícil na maioria das vezes é necessária ajuda profissional e o engajamento em diversas atividades. É necessário que quem sofre de depressão saiba que algo está errado e busque ajuda em clínicas especializadas ou até mesmo grupos terapêuticos. Muitas pessoas com depressão deixam de contar seus problemas aos amigos por se sentirem repetitivos e chatos e quanto mais omitem seus sentimentos, mais se sentem sufocados e nesse estágio pode surgir ou aumentar a vontade de sumir ou acabar com a própria vida. O suicídio é um perigo real e pode ser evitado com a ajuda adequada. Se a pessoa que esta sofrendo com a depressão perseverar no tratamento sentirá grande redução da tristeza e aprenderá estratégias para lidar com a angústia e a melancolia.
Afirmamos que um depressivo pode um dia se tornar feliz e disposto e muitos questionam se será necessária a continuidade na terapia. O tratamento comportamental da depressão não se estende por anos, mas não existe um prazo determinado para o fim da terapia. Existe o momento em que o paciente (ou cliente) percebe que já consegue lidar melhor com seus sentimentos e problemas e já consegue interpretar o mundo de modo mais positivo e otimista. De qualquer modo, com a interrupção da terapia é necessário que a pessoa continue aplicando as estratégias aprendidas e mantenha-se sempre em atividade. Quem tem depressão não pode “se dar ao luxo” de parar com seus projetos, pois quanto mais se afastar das atividades e das pessoas, maior será a chance da depressão voltar. É necessário que a pessoa com depressão se conheça melhor para poder identificar quando se iniciam esses processos autodestrutivos e possa interrompê-los. No momento que a fadiga começa a vencer o prazer e os pensamentos planejam abandonar tudo é necessário buscar ajuda.
Ninguém tem a obrigação de estar feliz e nem mesmo saber resolver todos os seus problemas sozinho. Quando iniciar um tratamento é necessário que exista confiança no profissional e no tratamento e também na própria capacidade de conviver com o humor instável até que a recuperação ocorra. O importante é tomar coragem, aceitar ajuda e procurar o tratamento mais adequado. 
O tratamento psicoterápico pode ser individual ou em grupo. A modalidade de tratamento em grupo permite maior conhecimento das próprias habilidades que normalmente ficam “escondidas” ou sem expressão nos estados depressivos. A grande dificuldade do depressivo é iniciar atividades e sentir prazer no que faz e por isso engajar-se nesse tipo de trabalho pode ser importante para que a motivação retorne lentamente. Nos tratamentos em grupo é respeitado o tempo de cada um e a atividade objetiva apenas colocar um pouco de cor no mundo cinza que normalmente é visto pelo depressivo. Não existe pressão, obrigação e ninguém precisa se expor se não se sentir à vontade, porém a participação pode acelerar a recuperação do ânimo e da autoconfiança.
A tristeza é um processo natural da vida, porém a depressão torna a vida triste e quando isso acontece está na hora de procurar ajuda, pois todos merecem a oportunidade de enxergar a vida com menos dor, de modo mais vibrante e colorido.

Rosana Portes
portesr@yahoo.com.br


Indicação de filme: 



A vida em preto e branco: nos anos 90 David (Tobey Maguire) é um jovem solitário, que não é feliz com sua vida e foge da realidade assistindo "Pleasantville", um seriado em preto e branco dos anos 50 onde tudo é agradável. Mas tudo muda bruscamente quando Jennifer (Reese Whisterpoon), sua irmã, que sexualmente muito mais ativa que David, briga com ele pela posse de um estranho controle remoto, que apareceu através de um igualmente estranho técnico de televisão (Don Knotts), que chegou repentinamente logo após eles terem quebrado o antigo controle. Durante a briga eles apertam o novo controle e são magicamente transportados para dentro da fictícia "Pleasantville" e lá se tornam Bud e Mary-Sue Parker, dois personagens da série. Eles de repente se vêem em um mundo todo em preto e branco. David leva alguma vantagem sobre sua irmã, pois como conhece muito bem o seriado, sabe quem são estes novos "conhecidos" e qual a importância que eles têm na vida de Bud e Mary-Sue Parker. Sob estes nomes fictícios, tornam-se filhos George Parker (Wiliam H. Macy) e Betty Parker (Joan Allen), que são pais adoráveis em um lugar onde todos são felizes, não há sexo e ninguém nunca precisa ir ao banheiro. David quer sair da situação como também a irmã dele, mas considerando que ele tenta se enturmar (sem esforço, com o conhecimento dele), ela faz o que ela gosta de fazer. Um evento conduz o outro e de repente uma rosa vermelha cresce e logo mais regras são quebradas e surgem novas cores e, se tudo não é tão agradável, com certeza tem mais emoção. Mas inicialmente nem todos gostam destas mudanças. (texto: adorocinema.com)