quarta-feira, 2 de julho de 2014

Liderança: uma utopia desejada

Em homenagem ao saudoso educador e gestor Rubens Portugal, vou postar textos escritos e trabalhados em Faxinal do Céu-Pr nos eventos chamados PROGEST - Programa de Aprimoramento da Gestão na Educação.

Nesses eventos direcionados aos professores e gestores de escolas públicas circulou muito conteúdo importante que não pode deixar de ser compartilhado. Um momento incrível de reflexões e debates sobre educação e uma equipe fantástica de estudantes e profissionais reunidos para o aprimoramento da educação da escola pública. Um tempo que não volta mais, mas que deixou marcas profundas de um trabalho em equipe verdadeiro e intenso. 

 Auditório Jean-Jacques Rousseau- Faxinal do Céu - Pr


  

Este primeiro texto da série aborda o tema liderança. Para abordar o assunto, Rubens Portugal descreve o próprio processo que ele comandava no Instituto Rubens Portugal. Participei dessa equipe e posso garantir que a sabedoria na arte de coordenar pessoas foi uma das maiores habilidades desse educador. Com uma linguagem simples e didática ele explica conceitos importantes sobre liderança e coordenação de equipes.


Escrito em 15.09.2002

LIDERANÇA NO IRP (Instituto Rubens Portugal): uma utopia desejada

RUBENS PORTUGAL

Pessoas que nos viram trabalhando em Faxinal do Céu disseram que se admiravam do modo como nós funcionávamos coletivamente. Um chegou a dizer que estando dormindo na mesma casa que eu, nunca viu o telefone me chamar para alguém pedir instruções durante a plena realização de um seminário Progest.

Eu costumo dizer para mim mesmo que se alguma obra eu estou realizando, esta é exatamente a forma de trabalhar desta nossa equipe do IRP. No entanto, só poderei festejar se um dia ficar provado que nós mesmos aprendemos os segredos dessa realização, conquista ou obra.

Em outras palavras, valorizo o aprendizado dentro de cada um dos integrantes da equipe do IRP.  Valorizo a lição e não apenas o feito.

QUEM MANDA EM NÓS É A   “DONA LÓGICA”

Construímos soluções coletivamente. Durante o planejamento e a preparação de qualquer evento somos colocados diante de inúmeras tomadas de decisões. São momentos decisivos porque escolhemos caminhos irreversíveis. Procuramos pensar ouvindo-nos uns aos outros. Apesar de nos orgulharmos de nossa  informalidade, cada pequena ou grande tomada de decisão obedece um certo ritual:

q  perguntamo-nos qual é o objetivo que nos é mais precioso;
q  lembramos da nossa missão maior;
q  fazemos um monte de informações compartilhadas entre nós; em outras palavras, todos nós nos recordamos das informações essenciais e pertinentes; tais informações podem estar dentro da memória de qualquer um de nós; neste momento não há hierarquia nenhuma, exceto o saber de alguma coisa “que eu sei e que todos os demais precisam também saber”;   no final dessa BOLSA DE INFORMAÇÕES PERTINENTES, todos nós estamos sabendo as mesmas coisas que todos os outros;
q  à luz dos elementos acima, nosso objetivo (nosso propósito), nossa missão e diante daquele monte de dados essenciais e pertinentes, ficamos em condições de criar alternativas de ação; são as primeiras cogitações do COMO FAZER;  nós nos orgulhamos (neste instante) de nunca ir buscar fórmulas já usadas em momentos anteriores; criamos soluções novas e adequadas ao novo contexto;
q  diante de alternativas viáveis, sempre nos perguntamos sobre qual é o fator mais valioso para servir de pano de fundo para a tomada da decisão;  existe um cliente ? o quê ele deseja ? qual a mais importante exigência ou expectativa do nosso cliente ?

Penso que nós temos nos aprimorado pessoalmente em cada momento de tomada de decisão. Eu não tenho preguiça de fazer o exercício coletivo de análise do problema com a cansativa participação do maior número possível de pessoas integrantes da nossa equipe. Demora mais do que se eu determinasse que tal coisa seja feita desta ou daquela maneira, mas há um proveito de incalculável valor futuro.  Valor futuro !
NÃO DISPUTAMOS A AUTORIA DA IDÉIA

As soluções vão sendo inventadas por nós de forma participativa. Sempre que eu estou envolvido no micro-processo de tomada de decisão, policio-me no sentido de eu não impor a solução. Procuro nunca usar o argumento do poder: - “sou o mais experiente”,  “sou o dono do IRP”,  “eu pago você, portanto tem de obedecer”, “sou mais competente” etc

Costumo dizer (e agir coerentemente) que a melhor idéia nos é trazida por um anjo que  sobrevoa a nossa reunião. Dá para ouvir o rufar de suas asas. Esse anjo é cheio de caprichos. Roda sobre nós e de repente pousa em uma pessoa qualquer.  Escolhe o “anjoporto” por um critério que nunca descobrimos qual é.

O espírito irpiano de equipe se fortalece porque nenhum de nós sente ciúme da pessoa escolhida pelo anjo para ter A IDÉIA.  Nas organizações antiquadas e autoritárias, o anjo não sentia prazer em trazer a idéia. Anjo não gosta de se sentir obrigado a sempre pousar na cabeça do chefe formal. Por isso, muitas idéias que poderiam ser fenomenais não aparecem para essas organizações rígidas e, conseqüentemente, o grupo (antiquado) fica com soluções muito pobres.

Eu gosto de proclamar que esta ou aquela pessoa do nosso grupo foi escolhida pelo anjo. Não tenho certeza se todos já chegaram no IRP com o coração preparado para festejar o “anjamento” de qualquer colega.  Sei que, com o passar das semanas e meses, todos vão ficando amansados e vacinados contra a inveja.

NO NOSSO GRUPO O MELHOR NÃO É O QUE TEM O MONOPÓLIO DAS DECISÕES

Às vezes o anjo fica pousando repetidamente em uma das cabeças. Há o perigo do escolhido recorrente ficar embriagado de glória. Eu não me importo. Espero que o escolhido não vá pensar que o anjo o escolheu para líder definitivo do grupo.

O fato de uma certa pessoa ter boas idéias não o credencia para assumir o comando da tropa toda.  Eu mesmo, na condição de mais velho e de fundador do IRP não tenho sido muito agraciado pelo anjo. Sinto-me extremamente feliz em perceber que o anjo anda pousando em várias cabeças mais moças.

O que é que me faz valorizar uma pessoa quando sentada na cadeira do poder ? Eu não escolho o meu substituto ou sucessor pelo critério do anjo.

Não é o mais criativo que será forçosamente o melhor chefe. Na cultura do IRP, a melhor pessoa não é que tem tido as melhores idéias.

Eu valorizo as pessoas que se mostram capazes de contribuir para o clima criativo e não, necessariamente, as que se mostram as mais criativas.

No futuro pode acontecer do IRP ser dirigido por alguém que nunca teve uma boa idéia mas que se destacou por ser capaz de criar o AMBIENTE CHAMA ANJO.

DISCIPLINA INTELECTUAL

Que é isso ? É uma das mais valiosas grandezas possíveis da alma humana.  Você defende uma solução com todos os argumentos e com toda a garra. Depois de exaustivas análises, “DONA LÓGICA”  é chamada e nos ensina que a melhor alternativa é aquela outra que não a sua.  Não será fácil aceitar a derrota ?

No IRP não há alternativa derrotada.  O que há é que “DONA LÓGICA”  escolhe a melhor solução porque sabe o que é melhor para o IRP no futuro. A melhor solução não será escolhida para agradar o ego de nenhum de nós.  Menos ainda o meu próprio.
Grandeza abençoada é a disciplina intelectual que consiste em ser capaz de amar a solução adotada pelo IRP mesmo que não tenha sido a sua preferida durante a fase de análise decisória.

SOMOS IMUNES A UMA DOENÇA MUITO COMUM NAS ORGANIZAÇÕES: - a disputa pela imposição da decisão minha, só porque é minha

Essa doença acontece nas organizações imaturas, mal educadas. A cura dessa doença é obtida quando todas as pessoas adotam a “DONA LÓGICA”  como a nossa única chefa.

“DONA LÓGICA” quer o bem do IRP.  Seu raciocínio é todo baseado nos fatores pertinentes.  A tal doença ocorre quando um dos nossos fica com capricho intelectual: -a solução tem de ser a minha; - eles têm de engolir a minha idéia; - se não for bem do jeito que eu imagino, não me responsabilizo pelas conseqüências...

Somos imunes a esse tipo de doença porque não alimentamos disputas de egos entre nós.

Há organizações que costumam equilibrar as disputas de egos fazendo o rodízio de vitórias decisórias. Nessas instituições, há geralmente duas ou três pessoas que disputam o poder. O chefe fica em palpos de aranha e tenta agradar um de cada vez. Numa rodada decisória, a decisão agrada a pessoa detentora do ego  “A” .  Na rodada seguinte, agrada o detentor do ego  “B” .  O resultado é uma catástrofe. As decisões não foram tomadas pelo critério da “DONA LÓGICA”.  Provavelmente a organização optou por uma seqüência de decisões incoerentes entre si porque cada uma delas surgiu de uma cabeça doentia, invejosa e diferente.


Há um ditado muito repetido no mundo anglo-saxão que diz assim: “If you do everything right, you have to have success.”

A tradução literal seria simples: “Se você faz tudo certo, você tem forçosamente de ter sucesso.”

Na sociologia comparada entre a cultura anglo-saxã e a cultura brasileira que é de origem latina, esse ditado precisa ser analisado com mais profundidade.  Os “ingleses” querem dizer que você fará tudo certo se você fizer o quê a organização necessita e não o que o chefe gosta, quer, impõe ou acata de alguém só para agradar esse alguém.  Esse ditado não é popular entre pessoas de cultura latina porque nós não valorizamos o interesse coletivo tanto quanto os anglo-germânicos o fazem.

O IRP é latino ?  anglo-saxão ?  ou anglo-germânico ?

Queremos cultivar as delícias latinas e conseguir uma elevação de propósitos que nos torne um grupo grupalmente eficiente e feliz. Sem ter a dureza dos louros do norte, poderemos atingir altíssimos níveis de competência coletiva.

As reflexões acima poderão ser mais discutidas entre nós. No entanto, eu penso que será mais proveitoso se cada um dos integrantes do IRP fizer a sua auto-reflexão na intimidade. Algumas perguntas poderão nos ajudar:

q  estou contribuindo para o clima “chama anjo” ?
q  consigo festejar o pouso do anjo na cabeça de outra pessoa diferente da minha ?
q  sou capaz de  amar a decisão que “DONA LÓGICA”  tomar, mesmo que não seja a minha preferida ?
q  sou capaz de aceitar (com sinceridade) que a “DONA LÓGICA”  me obrigou a fazer uma re-significação na minha visão quanto à melhor solução ?
q  sou capaz de gostar de estar aprendendo a re-significar soluções e até dizer “oh ! realmente, aprendi mais uma...”
q  sou capaz de valorizar o meu colega que não tem tido boas idéias mas que, em compensação é um danado de um construtor de ambiente “chama anjo” ?


Vale a pena observar que o saber ouvir está sendo, neste instante, re-significado pelo leitor deste texto. E não só pelo leitor, mas também por mim que o redigi. Confesso que nunca tinha percebido tão bem como neste instante que o saber ouvir implica em analisar informações provindas de todos os meus colegas de IRP.  E essa atitude de saber ouvir será valiosa se eu prestar atenção nos diversos colegas que me trarão  contribuições decisivas.

No entanto, o colega que eu mais valorizo nos momentos críticos de tomadas de decisão é uma colega muito tranqüila que se chama “DONA LÓGICA”.

  
Rubens Junqueira Portugal
Rubens Junqueira Portugal

Auditório Jean-Jacques Rousseau - Faxinal do Céu - Pr


Nenhum comentário:

Postar um comentário