segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Todos precisam de aprovação social

Diversos textos abordam os temas passividade e agressividade. De modo geral sabemos que o ideal é sempre o caminho do meio, nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Difícil mesmo é ficar no caminho do meio - a assertividade. Talvez realmente essa perfeição não exista e nem mesmo deveria existir, porque uma vida perfeita seria pouco desafiadora. Este é um texto dedicado a refletir sobre o porquê agimos e o que estamos buscando com nossos comportamentos.

Esta reflexão não é exatamente para achar um perfil perfeito e adequado, mas sim para analisar como agimos em função de outras pessoas. Na maioria das vezes não percebemos que agimos desta forma. Normalmente quando deixamos de falar algo, fazemos isso para evitar a reação negativa de alguém. Podemos pensar que simplesmente não estamos interessados em falar por cansaço, preguiça ou por puro desinteresse no outro. É realmente possível que essas sensações inibam o ato de falar, mas quando desejamos falar e acabamos não falando houve um desejo que não foi satisfeito. Nesta situação aparece a esquiva, o recuo, o receio. É exatamente nessas situações que enquadramos as atitudes tímidas.




O correto não é chamar uma pessoa de tímida, mas sim falar de atitudes tímidas. Afinal, todas as pessoas se comportam de acordo com o contexto social. Quando a atitude se torna frequente é natural que rótulos comecem a ser colocados: tímidos, agressivos, extrovertidos, etc. O perfil da pessoa tímida é semelhante a reação da tartaruga. A proteção que ela encontra para não ser rejeitada ou avaliada pelos outros é recuar para dentro do casco. Ela deixa de emitir um comportamento por medo da consequência negativa. Normalmente essa pessoa pensa demais no que os outros pensam e que na verdade são projeções do que ela mesma pensa que os outros possam estar pensando. Quantos pensamentos! Complicou? Pois é simples: a preocupação do tímido é a possibilidade do outro pensar o que ele mesmo pensa. Ele levanta uma hipótese negativa e vive mais dentro desse mundo irreal do que na realidade.

“Com medo que o outro pense que eu sou chato, simplesmente não falo.”

O tímido acaba optando por ter apenas um rótulo ao invés de diversas avaliações. Ele prefere ser visto como calado, envergonhado, tímido, do que se colocar à prova da avaliação de outras pessoas. Há, portanto, uma demasiada preocupação com a aceitação de outras pessoas. Um trabalho terapêutico consiste em melhorar a autoestima para que a pessoa reconheça suas qualidades e entenda que nas relações humanas as pessoas farão avaliações positivas e negativas. Nunca seremos 100% aceitos e admirados.

Há uma grande sensibilidade do tímido ao erro. Existe uma falsa crença de perfeição que o impede de tentar por medo de errar. Esse medo de errar inibe principalmente novos comportamentos. A ideia de perfeição é um pensamento irracional, pois o próprio tímido verifica que as pessoas de um modo geral não são 100% aprovadas. Quando ele percebe o erro dos outros acaba sendo amigável. Gosta de conviver com pessoas espontâneas que sabem rir de suas falhas, mas por que não consegue agir do mesmo modo?

Estudos sobre o funcionamento do cérebro já demonstraram o poder da imaginação no direcionamento de nossas ações. Um pensamento negativo, mesmo que irreal, pode inibir um comportamento. Em determinados transtornos psicológicos, apenas a possibilidade de alguma situação negativa pode antecipar uma sensação ruim causando reações físicas semelhantes à realidade. É como se o evento já estivesse ocorrendo. Ou seja, o fato de imaginar uma situação negativa já é suficiente para inibir um comportamento ou causar reações de vergonha ou medo.  Avaliando pessoas tímidas, não encontramos necessariamente um histórico de reprovações sociais, nem de humilhações sociais vividas na infância ou adolescência. 

Como todas as nossas ações estão vinculadas à necessidade de aprovação social, até mesmo a pessoa mais confiante e extrovertida pode estar agindo em função de agradar aos outros. Mesmo que o extrovertido não perceba ou admita, ele também age em busca de aprovação social.

Neste caso, a extroversão excessiva pode ter sido desenvolvida para atrair aprovação alheia. É exatamente a postura de um pavão. Humoristas, palestrantes apresentadores ou apenas pessoas agradáveis e falantes conduzem sua comunicação pensando em agradar. Quando uma pessoa se expressa com facilidade e habilidade social ela pode ou não ter uma boa autoestima. Se esta pessoa consegue discordar, lidar com desaprovações ou erros é provável que ela esteja disposta a ser desaprovada em alguns momentos para manter suas ideias e posições ativas. Se esta mesma pessoa consegue discordar sem entrar em conflitos, podemos avalia-la como socialmente habilidosa. Se esta pessoa fala muito, faz todo mundo rir, mas não discorda nunca de ninguém com receio de ser rejeitada, fica perceptível a maior necessidade de aprovação social. 

No outro extremo existem as pessoas agressivas ou “duras” nas interações sociais. Um extrovertido também pode ser agressivo, assim como alguns tímidos podem ser agressivos em alguns momentos. A atitude agressiva é a semelhante a do escorpião que provoca medo e receio. De um modo geral são pessoas que alimentam a ideia de autoconfiança e autoestima elevada. Podem ser excessivamente julgadoras, especialistas em encontrar defeito nos outros. É tentador afirmar que tais pessoas não sentem necessidade de aprovação social, pois brigam, são menos carentes de atenção e acreditam em si mesmas. Pois no outro extremo do modelo tartaruga, as pessoas de estilo escorpião podem ser pessoas que desenvolveram uma falsa ideia de superioridade para evitar sensações negativas provenientes da avaliação alheia. Ou seja, se eu acredito fortemente que estou sempre certo e sou mais inteligente, passo a acreditar que todos deveriam seguir minhas ordens e assim passo a ignorar pessoas que questionem minhas opiniões ou habilidades. Tais pessoas tornam-se autocentradas e, da mesma forma que o passivo acredita em pensamentos irreais de inferioridade, o agressivo acredita nos pensamentos irracionais de superioridade. A diferença mais marcante é que o agressivo tende a não enxergar sua necessidade de aprovação social. 

O agressivo também pode ser alguém preocupado com seus erros e imperfeições, porém adota uma postura arrogante que inibe que os outros lhe façam críticas ou avaliações negativas. Ele vende uma ideia de poder visando que outro o admire e até o inveje, mas jamais o questione. O agressivo tende a conviver com pessoas que se submetem a sua personalidade e evita aquelas que possam abalar suas crenças de superioridade. De um lado ou de outro a necessidade humana de destaque, perfeição, sucesso e aceitação é o motor de tais condutas.

Todos nós necessitamos de aprovação social, sem exceção. Todos nós sentimos vontade de ter sucesso, inteligência e habilidades especiais. O grande problema desse mecanismo é quando esta necessidade nos coloca em ações negativas como passividade, agressividade ou exibicionismo/passivo – aquele onde sou fantástico socialmente, mas não consigo expressar minhas opiniões discordantes. 

Particularmente, considero o caso mais complicado para convivência social o perfil agressivo, pois pela falsa crença de superioridade ele não admite a necessidade do outro e nem aceita críticas ou discordâncias. Pessoas agressivas demoram a buscar ajuda terapêutica e possuem um julgamento de que apenas são exigentes. Esse perfil é o que mais perturba no trabalho, pois não sabe identificar que gosta de ser visto como alguém implacável, que não aceita erros, que é melhor do que todos. Cada erro alheio alimenta sua ideia de superioridade. Ele gosta de ressaltar os  erros para que ele possa se sobressair. Muitos diretores de empresas e pessoas bem sucedidas podem incidir neste comportamento negativo. Quando essas pessoas possuem sucesso ou poder financeiro elas aumentam ainda mais as crenças de superioridade e negam muito mais suas dificuldades de relacionamento.

A análise comportamental é fundamental para que possamos conhecer nossa forma de agir nos ambientes e começar a alterar condutas que estão exageradas. Mesmo que muitas pessoas afirmem não se importarem com a opinião dos outros, precisam sim de algum nível de aprovação social. O agressivo necessita de passivos para que ele possa comandar ou intimidar, o tímido precisa do extrovertido que possa aparecer mais do que ele e assim protegê-lo da exposição, o extrovertido precisa do sorriso e do elogio dos seus próximos. Equilibrar nossa conduta é fundamental para manter a saúde mental. Quando não possuímos humildade para verificar exageros podemos nos tornar pessoas difíceis, inconvenientes, críticas e arrogantes.
Os chamados tímidos incomodam muito menos, porém causam um sofrimento intenso para eles mesmos e limitam muito as chances de um agradável convívio social. Neste caso, até mesmo o sucesso profissional pode ser prejudicado, já que muitas vezes é necessária a expressão verbal e o trabalho em equipe.

Essa foi uma pequena reflexão, apenas para demonstrar algumas tendências comportamentais rígidas, que trazem muitos prejuízos sociais. Devemos lembrar sempre que o ser humano é bastante complexo e as reações emocionais são bem variadas. Cada um possui uma composição única de respostas comportamentais que torna cada indivíduo diferente um do outro.

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