quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Ética e Prática do Gestor - Rubens Portugal


Mais um texto da série em homenagem ao Rubens Portugal. Educador e Líder exemplar que deixou textos com linguagem simples e de grande significado para educadores. Texto utilizado nos trabalhos em grupo realizados em Faxinal do Céu- PR. Escrito em  10 de fevereiro de 2001.


ÉTICA & PRÁTICA DO GESTOR:

                                              educador de educadores
                                                                                                                          RUBENS PORTUGAL

Ela não se lembra com exatidão quando foi que pensou pela primeira vez em ser Diretora. Os colegas começaram a falar: “em você eu voto". Em casa também disseram: “poxa, dá para melhorar o salário, né...afinal você merce, tão esforçada”. 


O Poder poderia ser representado por duas irmãs de mãos dadas: uma sempre olhando para cima com um sorriso de quem está encantada com alguma coisa e a outra olhando para baixo com o cenho cerrado.  A primeira é chamada de Miranda do Poder. A outra, de Credanda do Poder.  Estas duas irmãs existem dentro de todos nós. Dentro da nossa alma. Nas pessoas mais ambiciosas, a Miranda é mais dominante.  A Credanda tem sua vez dentro dos indivíduos mais comedidos e cautelosos. Além disso, esse jogo de forças varia conforme a idade.

A Miranda é a deusa que instiga as pessoas a querer subir, galgar cargos, postos, nas alturas do poder. A Credanda é introspectiva e prudente, interessa-se pelo que pode ser feito por alguém que já tenha o Poder.

Don Juan, o índio feiticeiro, da “Erva do Diabo” de Carlos Castañeda, disse em certo momento que o homem atravessa três fases na vida. Na primeira, não tem poder e nem saber. Na segunda, a mais perigosa, já tem poder e ainda não tem saber. Na terceira, em que pode se salvar, reúne poder e saber.

O primeiro problema que se passa com um novo Gestor na Educação é quando já tem o poder e ainda não tem o saber. Porque se deixou encantar pela Miranda do Poder e não deu ouvidos à Credanda.

Chegar ao Poder é coisa que está no campo das artes da Miranda. Exige habilidade política para prometer, acertar, ajustar, aliar-se e fazer conjuras. É tão difícil que muitas vezes não sobra tempo e nem energia para ouvir a Credanda, ou seja, pensar NO QUE FAZER quando lá chegar.

A Miranda do Poder é uma deusa que está sempre sussurrando: aceita! Negocia! Promete! Vende a alma ao diabo!  No mínimo,  hipoteca-a! Depois se dá um jeito !

E quanto mais a Miranda prevalece e é ouvida, mais a Credanda se desespera e fica carrancuda.  Zangada.

No dia da posse, a Credanda é chamada para se sentar no lugar de honra, do lado direito do novo Diretor. Durante a cerimônia, fica o tempo todo recitando baixinho os versos de Carlos Drummond de Andrade:“e agora, José ?A festa acabou...”

A Credanda tem muito mais para nos ensinar quando queremos conhecer os motivos que levam um Gestor a agir desta ou daquela forma. Foi a Credanda que nos lembrou de que deveríamos ler o “Autoengano”, obra de Psicologia de autoria do brasileiro de Minas Gerais, Eduardo Gianetti da Fonseca, Doutor em Economia pela Universidade de Cambridge, Inglaterra. Ele mostra como e porque tomamos caminhos errados enganando-nos e porque somos influenciados pelos sussurros da Miranda e não pelas “broncas” da Credanda.

Há uma série de coisas que precisam ser colocadas no dia da posse do novo Diretor de Escola. Ou Diretora, é claro. Lá na terra do Eduardo Gianetti, eles costumam dizer que o marido tem de “matar o galo” na primeira noite... porque se não o fizer  na primeira noite, não o fará nunca mais.


A Credanda nos diz que, no ato da posse, o Diretor tem de firmar um contrato íntimo consigo mesmo:

·         não posso obrigar ninguém a me amar, mas posso fazer com que me respeitem;

·         só serei respeitado se EU respeitar os outros;

·    as regras são claras e iguais para todos: manter um pequeno grupo de íntimos que fiquem dispensados das exigências, é desrespeito para com os demais e por isso, para que eu seja respeitado, terei de tratar todos com os mesmos pesos e mesmas medidas;

·         todas as manhãs, vou tomar uma colher de sopa de franqueza e outra de gentileza;

·         o Diretor não será respeitado se for incompetente;

·   no reverso da medalha, ninguém consegue livrar-se das “bolhas de ignorância” porque as informações são em maior número do que conseguimos absorver;

·         tenho de estabelecer que a minha primeira competência é a sinceridade de dizer NÃO SEI   e, em seguida Tu me ensinas ?  Ou, então, vamos juntos aprender o certo?

·         por isso, a minha atitude é uma paráfrase de ditado muito conhecido: “Nunca deixes para depois o que podes aprender agora, já”.

·         NÃO SEI, MAS VOU APRENDER e é para já.

A CREDANDA É QUE NOS ENSINA QUE O GESTOR NA EDUCAÇÃO É UM EDUCADOR DE EDUCADORES.  Por isso, tem de começar educando-se a si mesmo.

·       Liderança é algo ligado à expedição, viagem, deslocamento para algum ponto no futuro.  O ponto no futuro é o Objetivo principal da Escola, que precisa estar latejando dentro de toda a equipe, em uníssono. Donde se conclui que todos devem participar na definição do grande objetivo da equipe.  Para que todos se sintam “donos” do objetivo.

·         Só é líder quem sabe para onde a expedição tem de ir.

·     Todo Diretor novo tem um PRAZO para descobrir onde é o ponto futuro para onde vai querer levar a expedição. (Tudo isso, é óbvio, está em linguagem figurada que é clara para um certo tipo de gente mas não para uma  minoria... 40%)

·         Se ele não definir o destino da expedição dentro do PRAZO vai continuar Diretor, mas não será líder.

·      A primeira condição para um Diretor conseguir descobrir o ponto futuro é querer. Isso se apresenta aos olhos de “todoomundo” de forma escandalosamente clara, porque há coisas que ninguém esconde de ninguém. Uma delas é estar apaixonado. Outra é não ter ainda o ponto futuro de uma gestão. Então, como isso não vai ficar oculto, é melhor abrir o jogo de forma escancarada: “vamos lá, "todoomundo", vamos trocar idéias até descobrirmos JUNTOS o nosso ponto futuro”.

·        Na cadeira do Poder, há um botão igual àquele que tem em porta de geladeira e de automóvel.  Aquele que, quando a porta fecha, desliga uma lâmpada. Quando o professor se senta na cadeira do Poder, por ter sido nomeado Diretor, o peso do seu corpo comprime aquele botão que lhe desliga, automaticamente, o ouvido. (Quando o indivíduo é sabido, senta de banda e continua com o ouvido ligado).

·         Qual a competência mais essencial para ser um Diretor bem sucedido? Não é saber inglês. Não é saber todas as Leis de memória. É ser capaz de OUVIR.

·         OUVIR. Significa que quando alguém chega, o Diretor olha nos olhos e seu coração diz assim: “eu quero compreender você bem no fundinho...” Aquilo que o coração disse, sobe e aparece na “televisão” do rosto dele e é percebido com total clareza pela tal pessoa que chegou. E, ouvir até o fim, calmamente, sem interromper o que está falando. E pedir mais esclarecimentos. E perguntar assim: “vamos ver se compreendi bem; você está me dizendo que...” Toda a arte está em dizer o que a pessoa disse com OUTRAS PALAVRAS, mostrando que compreendeu tanto que até é capaz de dizer com outras palavras.

Quando um Diretor está possuído desse tipo de atitude, não há ninguém que o desrespeite. Por quê? Porque não há prova melhor de respeito do que QUERER OUVIR.

·         Quando um Diretor consegue descobrir o ponto futuro para onde tem de levar a expedição, aí sua ação de liderança fica mais fácil. AGORA EU JÁ SEI PARA ONDE QUERO IR.

·         Agora, é só organizar o time (equipe) colocando a pessoa certa no lugar certo.

·      Todos tem virtudes e defeitos. Um dos segredos da liderança é só procurar VER as virtudes de cada um. Em outras palavras mais grosseiras: descobrir para o quê cada um SERVE.

·     Não adianta querer massagear um belo touro de pura raça  para transformá-lo em cavalo de corrida. É um erro muito freqüente insistir  numa certa pessoa para uma certa função para o qual ela não serve.  Não só é perda de tempo como deixa a pele do “touro” irritada. As mãos do massagista, também.

·         Mesmo sendo cavalo de corrida, no entanto, qualquer pessoa tem limitações. Isso quer dizer que nunca devemos dar uma missão impossível, além das possibilidades de alguém.  Afinal, o boi consegue tracionar maior peso, em marcha lenta. O cavalo é destinado à velocidade, com carga leve. Ambos têm suas vantagens e suas deficiências.  Assim, também, as pessoas: o bom gestor preocupa-se em VER e APROVEITAR sempre o que há de melhor em cada colaborador.  Não fica “escarafunchando” os defeitos que isso é até mais fácil e nada construtivo.

·    Há pessoas que querem comandar dando ordens taxativas e pensando que isso reforça a sua liderança. Puro engano. A melhor maneira de conseguir que as coisas aconteçam é fazendo perguntas.

·         Porque não adianta eu apontar o revólver para uma galinha e exigir que ela ponha um ovo, JÁ!

·     Todos os seres humanos querem acertar como as galinhas querem botar ovos. (Já viu galinha tomar pílula anti-ovos?) O que acontece é que tanto os ovos precisam de tempo e cálcio para endurecer a casca e ficar prontos para sair, como os HOMENS precisam de tempo e informações para ficar com vontade de botar seus ovos, ou seja, produzir coisa que preste.

·         Garantido: tanto a galinha quanto o HOMEM gostam que elogiem seus ovos.

·      É uma falácia dizer que elogio estraga. O que estraga é elogio demagógico que é feito num sentido de bajulação do subordinado. O verdadeiro líder não precisa DIZER com palavras um elogio. Basta olhar com atenção e o seu coração dizer que apreciou a coisa produzida. A pessoa SABE QUE AGRADOU. Basta o gesto simples que comprova que prestou atenção, mas não pode faltar essa sinalização.

·         Tudo o que é meritório tem de ser proclamado, sim, em público.

·      Para que todos saibam que o líder não tem ciúme das proezas dos seus liderados. Tem orgulho deles.

·         A proeza bem sucedida é sempre obra de alguém que não o líder. Pode ser de uma equipe, e um grupo, de um setor, mas nunca dele.

·         Os erros, fracassos, vergonheiras. Ah! Esses, ele absorve só para ele. Porque o líder é responsável por tudo o que acontece OU DEIXA DE ACONTECER numa escola.

·         Há Diretores que querem tirar proveito do cargo para vários tipos de exercício de vaidades e de abusos de Poder.

·         Os verdadeiros Diretores líderes, aqueles que são inesquecíveis, são os que só se preocupam em FAZER alguma coisa que tenha valor para as suas crianças. Sem se preocupar com mais nada.

·        Não confundir dilema (uma coisa exclui a outra) com dualidade (duas coisas diferentes que se completam).

·    Os grandes e inesquecíveis Diretores de Escolas são os que conseguem combinar duas coisas aparentemente antagônicas, mas que se completam: - a bondade (amor) e a severidade (senso de dever). Eis aí uma bela dualidade construtiva.

  
Em todos os tipos de atividades humanas tem de haver alguma coisa mais decisiva, mais importante, mais essencial.  Dentro de uma escola, a coisa mais importante não é a limpeza, a segurança, a burocracia, os equipamentos, a biblioteca.  A coisa mais importante é o que acontece dentro da criança no momento em que ELA se defronta com algum desafio e tenta superá-lo.   O verdadeiro gestor na educação é aquele que se preocupa com esse pequeno detalhe e todos os dias vai até onde está alguma criança a fim de conversar com ela e saber como vai indo a sua caminhada no rumo da vida.


Numa escola, pois, a HORA DA VERDADE é o que acontece dentro de cada criança no instante em que se defronta com algum obstáculo, dificuldade, problema, desafio.  E essa dificuldade tanto pode ser intelectual quanto afetiva ou emocional.  Tanto pode ter sido criada dentro da sala de aula, pelo professor, na intenção de desafiá-la, quanto pode ter se originado no lugar onde a criança costuma dormir que tanto pode ser um lar bem estruturado quanto um amontoado de pessoas que apenas convivem e sobrevivem num ambiente miserável.