terça-feira, 28 de julho de 2015

Psicodiagnóstico Cognitivo-Comportamental



O psicodiagnóstico realizado na área cognitivo-comportamental tem o propósito de avaliar o comportamento e sua relação funcional com o ambiente.  A noção de comportamento nesta abordagem refere-se a um conceito amplo onde o comportamento não significa apenas uma ação física ou verbal, mas sim uma relação complexa entre pensamentos, ações e sensações dentro de contingências reforçadoras ou punitivas. Na abordagem comportamental os sintomas são descritos como comportamentos disfuncionais que apresentam determinados padrões. Muitos destes padrões são descritos nos manuais de transtornos mentais (DSM e CID), que acabaram servindo de referência para definições diagnósticas e comunicação clara entre profissionais da saúde. O psicodiagnóstico possibilita que o profissional conheça as variáveis envolvidas na queixa do cliente e estabeleça as diretrizes de tratamento de acordo com sua linha de atuação.
       
Na prática clínica a entrevista é utilizada para que o profissional possa reconhecer a descrição da queixa do cliente e os motivos da procura ou encaminhamento para um tratamento psicológico. Após o acolhimento das queixas iniciais é importante a investigação do histórico de vida do paciente, pois assim podem ser identificadas as relações deste indivíduo na sua infância e adolescência e como foram estabelecidas as contingências (reforçadoras e punitivas) na formação de condicionamentos. O propósito desta avaliação é completamente diferente das abordagens psicodinâmicas. Este histórico visa à compreensão de condicionamentos que podem estar ainda atuantes na vida presente do cliente, mas não será o foco das estratégias comportamentais posteriores.  Antes de iniciar uma intervenção clínica é preciso verificar quais são os possíveis desencadeadores de sensações, ações ou pensamentos disfuncionais e que trazem prejuízos pessoais e sociais na vida do cliente. Apesar de existirem divergências teóricas entre a teoria cognitiva e a comportamental, na prática clínica o enfoque na avaliação de pensamentos automáticos e crenças centrais revelou-se um importante trabalho na busca de distorções cognitivas que influenciam ações e sensações. Os psicólogos cognitivistas enfatizam a importância de uma correta avaliação de padrões de pensamentos para posterior modificação destes pensamentos com intervenções cognitivas. Para avaliação destas crenças são utilizados questionários e escalas. 

Normalmente após definir as hipóteses diagnósticas e mapear os padrões disfuncionais, o terapeuta e o cliente estabelecem um foco para o trabalho terapêutico. No decorrer do processo algumas escalas podem ser utilizadas para ajudar a mensurar os progressos realizados e iniciar novos planos terapêuticos. O psicólogo também pode utilizar estes instrumentos para reavaliar hipóteses diagnósticas e alterar o curso de estratégias que se apresentaram pouco eficazes. Vale lembrar que os questionários e escalas não devem ser aplicados de modo mecânico, pois dentro de um processo cognitivo-comportamental os comportamentos emitidos pelo terapeuta fazem parte das contingências reforçadoras do tratamento, principalmente na fase inicial onde o vínculo positivo deve ser estabelecido. A forma de coletar as informações deve sempre ocorrer dentro de um contexto empático e acolhedor para facilitar que o cliente se envolva nesta investigação e se sinta motivado para enfrentar mudanças no seu comportamento.

O psicólogo pode fazer uso de testes psicológicos coerentes com sua abordagem de atuação, desde que domine a forma de aplicação e interpretação dos dados. Existem muitos profissionais especializados na aplicação de instrumentos técnicos específicos e eles podem ser solicitados para esclarecer algum diagnóstico diferencial. Se um instrumento é mal aplicado ele pode perder sua eficácia para os fins diagnósticos e desorganizar o plano terapêutico. É sempre importante que o psicólogo busque informações adicionais quando não possui clareza do contexto diagnóstico, trabalhe em parceria com psiquiatras que podem estar intervindo com medicações que afetam o comportamento alvo do tratamento. A medicação é uma variável importante que proporciona alterações comportamentais que não são provenientes de técnicas aplicadas em consultório. Alterações nas dosagens das substâncias prescritas, alterações das substâncias ou retiradas devem ser cuidadosamente avaliadas pelo psicólogo, pois podem alterar a avaliação e condução do tratamento.

Rosana Portes de Miranda – CRP 08/11427

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Reportagem da BBC - Por que os jogos viciam

Psicologia por trás do sucesso de jogos como ‘Candy Crush’



Foto: Candy Crush
Jogo em diversas plataformas aumenta probabilidade de vício
Sobre o tabuleiro se pode ver dezenas de doces diferente. A tarefa é juntar os que tem a mesma cor, mas há obstáculos e truques para conseguir ao longo dos 400 níveis. Muitos passam incontáveis horas jogando e alguns chegam a gastar centenas de dólares com isso.
Candy Crush Saga, o jogo mais popular da história do Facebook, é jogado mais de 600 milhões de vezes por dia, por 50 milhões de usuários.
Ele apareceu no vídeo mais recente do famoso cantor sul-coreano Psy, foi o jogo mais baixado em dispositivos Apple e Android nos últimos meses e, para milhares que se manifestam em blogs e redes sociais, é um vício irresistível.
Há quem afirme que seus antecessores são Tetris e o jogo da cobra dos celulares Nokia, mas seu parente mais próximo é Bejeweled, de 2001, que consiste em ordenar diamantes da mesma cor.
Lançado em novembro de 2012 e desenvolvido pela empresa King, o Candy Crush Saga gera mais de US$ 600 mil (R$ 1,3 milhão) ao dia ─ segundo dados não oficiais ─ através das "ajudas" que os usuários podem comprar para passar de níveis mais difíceis.
Os criadores insistem que é possível completar o jogo sem pagar nada, mas acredita-se que as ferramentas sejam fonte de milhões de dólares para a empresa, que não revela números.
Como em muitos jogos do tipo, a tarefa do Candy Crush parece simples: ordenar os elementos e passar de nível. No entanto, ele é feito com características diferentes para estimular o vício nos jogadores.

Tarefas incompletas


Foto: Candy Crush
Cifras não oficiais dizem que jogo fatura US$ 600 mil por dia
Para o professor de psicologia e ciências cognitivas Tom Stafford, da Universidade de Sheffield, na Grã-Bretanha, o vício em Candy Crush se relaciona a um fenômeno psicológico chamado efeito Zeigarnik.
O psicólogo russo Bluma Zeigarnik dizia que os garçons costumam ter uma memória impressionante para lembrar dos pedidos, mas só até que os cumprem. Uma vez que a comida e a bebida são levadas até a mesa, eles se esquecem completamente de algo que sabiam momentos antes.
"Zeigarnik deu nome a todos os problemas em que uma tarefa incompleta fica fixada na memória. E Candy Crush gera uma tarefa incompleta", disse Stafford à BBC.
Cada tabuleiro ─ ou cada nível ─ é uma tarefa que o jogador sente a urgência de resolver, como acontece com jogos de perguntas ou dúvidas que aparecem em uma conversa e que é preciso ir à Wikipedia imediatamente: a pessoa não descansa até que saiba a resposta.
Mas o Candy Crush dá aos jogadores cinco vidas por nível e, se elas acabam, é preciso esperar 30 minutos para voltar a jogar. É meia hora durante a qual o problema fica sem resolução.
"A lógica dos 30 minutos reforça a psicologia de que você tem que jogar todos os dias", afirma Jude Gomila, da consultora de videogames Heyzap.

Hospedagem no Facebook


Foto: Candy Crush
Candy Crush tem mais de 400 níveis e nunca se volta ao primeiro
O jogo é hospedado pelo Facebook, o maior site de rede social do mundo, mas também está em todos os dispositivos da Apple ou com sistema Android, o que permite parar de jogá-lo em uma plataforma e retomá-lo em outra.
Por isso, muitos o defendem com o argumento de que "(o jogo) nunca te deixa sozinho".
"É o primeiro jogo que realmente interconecta diferentes plataformas. Se você fica sem bateria no iPad, pode ir para o celular e, se cansa do celular, pode ir ao computador", diz Gomila.
Os jogadores podem compartilhar não somente seus resultados no Facebook, mas também ferramentas e vidas. Assim que a pessoa publica seus resultados, pode ver a comparação entre seu progresso e o de seus amigos na rede social.
"Não há nenhum prêmio neste jogo além da satisfação de suspeitar que suas habilidades para juntar doces são maiores que as dos seus amigos", diz o crítico cultural June Thomas, da revista eletrônica americana Slate.
O vício em Candy Crush deu origem a uma série de piadas na internet, mas os diversos casos nos últimos anos de adolescentes que morreram após longas jornadas de uso de videogames provam que a ludomania (vício em jogos) é um problema sério.
Nas redes sociais já circulam fotos de um suposto centro de reabilitação para viciados em Candy Crush ─ uma piada que diz muito sobre o alcance do fenômeno.


fonte: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/08/130806_candy_crush_dp_cc