sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A separação e seus danos


Neste texto quero abordar o assunto da separação dos pais e o impacto desta separação nos filhos. Nos meus 12 anos de atividade clínica, presenciei diversas situações familiares. Famílias que funcionavam sem pai, outras sem mãe, outras somente com avós, outras com apenas tios e tias e outras que funcionavam bem e mal com pai e a mãe juntos na mesma casa.

Essa variedade de relações dentro de um lar promove diferentes efeitos em todos os membros de uma família. Quando os pais são unidos e coerentes tudo fica mais fácil, mas hoje em dia a tarefa de comandar uma família está cada vez mais difícil.

A decisão pelo divórcio às vezes é a melhor saída para determinadas situações. Permanecer juntos num ambiente de brigas e insultos pode ter um impacto muito mais negativo nos filhos. Os seres humanos possuem uma forte tendência para a autodefesa. Diante de conflitos é muito natural que cada pessoa queira “defender o seu peixe”. Enxergar os próprios defeitos e admiti-los para outra pessoa é um comportamento nobre, digno de pessoas muito conscientes e esclarecidas. Sendo assim, o que encontramos no cotidiano são brigas feitas de acusações do tipo: quem erra mais?

Essa tendência humana em se esquivar e de negar falhas, faz crescer o olhar crítico para os erros dos outros. Eu poderia afirmar que muitos conflitos entre casais iniciam com pequenas teimosias; uma inflexibilidade em fazer mudanças que beneficiem o outro. O projeto familiar começa a se dissolver quando o casal demonstra que possui diversos pontos de imaturidade.

A perfeição é algo impossível de ser atingida. Seria impossível um ser humano executar todas suas atividades com exatidão em cada contexto. Temos oscilações de humor, confundimos nossos sentimentos e desejos, criamos expectativas falsas em relação às pessoas e situações. Além dessa oscilação individual ainda existe a combinação de interesses dentro de uma família. O conceito de correto e perfeito para cada família é muito diferente e esta combinação de diversas pessoas, com suas próprias oscilações, torna a tarefa da convivência uma arte complexa e às vezes caótica.

De alguma maneira a vida segue e as peças vão se encaixando, como num caminhão de abóboras em movimento, mas quais são as situações onde os conflitos prejudicam diretamente a personalidade dos filhos?

Qual é afinal o papel dos pais na formação da personalidade dos filhos?

Quando um casal decide se separar, quais os cuidados que devem ter para evitar danos na relação e na autoestima de seus filhos?

Essas questões são fundamentais para que a decisão dos pais não afete negativamente o desenvolvimento das crianças e adolescentes. Mesmo que um casal decida permanecer unido, precisa avaliar a forma da convivência, pois brigas, xingamentos e desrespeito são os maiores vilões dessa história. Separados ou unidos, os pais necessitam de maturidade para entender que a responsabilidade de pais é maior do que o interesse individual de cada parte como marido ou esposa.

A criança no meio do tiroteio

Muitos pais inflamados com sentimentos de raiva e decepção ficam tão cegos que não percebem que demonstram essa raiva para os filhos. Os filhos precisam dos pais e não precisam decidir, como numa audiência, de que lado eles querem estar. Falar mal um do outro para os filhos é uma atividade extremamente danosa. As crianças e adolescentes precisam se sentir seguras, confiar que os adultos saberão resolver os problemas enquanto são incapazes de tomar decisões.

Quando o pai ou a mãe tentam explicar ao filho o lado ruim do outro isso só torna a criança mais insegura, pois ela percebe claramente a imaturidade dos pais e teme ser prejudicada pelos defeitos que ambos os lados se acusam. Saber lidar com raiva e decepção é uma habilidade psicológica importante para os pais. Pessoas bélicas, impulsivas, reativas tendem a perder a calma e acabam expondo seus conflitos na frente dos filhos. A criança não deve ser um juiz que decide a audiência, ela precisa ser protegida de emoções negativas muito intensas e que fogem ao controle dela resolver.

Dia de visita

Normalmente a guarda dos filhos fica com a mãe, então o pai tem os dias certos ou o final de semana para ficar com seus filhos. É muito importante respeitar essa divisão, pois o pai acaba tendo menos contato com o filho e pode acontecer um distanciamento pela falta de convivência. Além de manter o contato na visita é fundamental que o pai (ou em alguns casos a mãe) ligue para o filho com frequência, para mostrar interesse pelo dia a dia da criança. Alguns pais dedicam-se apenas ao dia da visita ou ao final de semana “dele” e a convivência também fica fria e distante. A criança não deve se sentir visita na casa do pai. Precisa ter intimidade e espontaneidade para dizer o que está sentindo. Se não fala muito ou resmunga é porque algo deve estar errado.

Na adolescência é ainda mais difícil, pois os eventos com os colegas geralmente ocorrem no final de semana. Se o acordo estabelecido é no final de semana, pode ser a hora de flexibilizar essa regra. Transformar a permanência em casa num almoço, ou uma pizza a noite pode ser mais eficaz do que obrigar o adolescente a ficar com o pai e perder o encontro com os amigos. Almoços ou jantares durante a semana também podem ser eficazes para colocar a conversa em dia.
Certamente a adolescência necessita de limites, obediência, mas isso precisa ser feito com bom senso. Se o adolescente está seguindo essa fase de forma branda e educada ele deve ser ouvido para que a boa relação entre pai e filho permaneça saudável.

Casas com regras diferentes

Após a separação cada um seguirá sua vida com suas próprias regras no lar. Uma diferença muito brutal de hábitos de uma casa para outra pode ser negativa se for imposta de forma autoritária. Normalmente o costume dos filhos é muito mais coerente com o ambiente onde ele fica mais tempo (na casa da mãe na maioria dos casos). Esse é um item que normalmente gera muito atrito entre o casal, pois novamente começam a apontar os erros na rotina de cada casa. Se os pais tem um bom relacionamento fica mais fácil debater sobre a melhor maneira de realizar determinados rituais em casa como horário de dormir, hora de estudar e fazer tarefa, hora de comer, organização de roupas, participação na limpeza da casa e etc.

Quando existem mágoas e ressentimentos esse já é um pretexto para desqualificar o antigo companheiro. Os pais começam as trocas de acusações. É muito importante que os pais percebam e tenham maturidade para admitir que enquanto “alfinetam” o antigo parceiro é porque ainda não resolveram suas questões emocionais ou porque ainda querem competir para ver quem se sai melhor na educação. Essa também é uma atitude imatura, pois nenhum consenso pode ser estabelecido na base da competição:

- Sua mãe deixa você dormir tarde para facilitar a vida dela de manhã cedo!

- Seu pai não te ensina a arrumar as coisas em casa, vai virar um vagabundo!

- Seu pai fica dando presentes caros para você gostar mais dele, não está nem aí que você “vai mal” na escola!

- Sua mãe está sempre atrasada, é uma desorganizada, por isso você está desse jeito!

- Aqui em casa você estuda muito mais porque tem regras, na casa da sua mãe é uma bagunça!

Poderíamos fazer um livro só com esse tipo de frase. Muitos pais devem reconhecer que fazem esse tipo de comparação o tempo todo. Isso acontece até mesmo quando ainda moram juntos, mas já estão em conflito.

Novamente não podemos exagerar. Alguns conflitos são normais e fazem parte do cotidiano. O grave neste caso é a insistência em apontar o defeito do outro. Não existe uma crítica saudável se não for feita de forma gentil e educada. Existe sim COMPETIÇÃO e os filhos já não sabem mais qual o ambiente mais saudável para ele. Se os pais não conseguem dialogar e chegar num acordo, é necessário que haja respeito pelo ambiente criado pelo seu antigo parceiro e caso identifiquem algum hábito muito ruim devem dialogar longe dos filhos.

As crianças se adaptam as diferenças, sabem reconhecer a personalidade de cada um e tendem a respeitar quando possuem bom relacionamento com ambas as partes. Não há necessidade de escolher o MELHOR ambiente. O mais importante é que ela admire os pais, cada um a sua maneira. Se a rotina do pai é muito diferente da mãe, e o filho manifestar desconforto, é necessário que o pai reveja algumas posições e tente deixar o ambiente mais próximo do filho. A criança ou adolescente podem sentir as diferenças, mas precisam se sentir à vontade em ambas as casas.

Padrasto ou madrasta

Este é outro ponto delicado, pois é a entrada de mais uma pessoa com novas regras e oscilações de humor no ambiente da criança. Esta nova pessoa não apenas entra com sua personalidade, hábitos e regras, como passa a opinar na educação e na rotina da casa. Cabe aqui muita sabedoria e maturidade dos pais para entender os sentimentos dos filhos.

Muitas vezes os pais querem que o filho aceite de uma hora para outra a presença de uma terceira pessoa, quando ainda mal se adaptou a separação. Quando a separação é recente as crianças também se sentem ressentidas e sentem que também foram lesadas. Os filhos podem sentir ciúmes por tomar as dores do pai ou da mãe, podem se sentir ameaçados com a presença de uma nova pessoa que além de roubar a atenção, também vai colocar regras que não pertencem à personalidade do pai ou da mãe.

A personalidade desse novo membro na família é um fator decisivo nessa composição, pois pessoas mais maduras tendem a perceber a situação e serem mais sutis na adaptação tentando interferir menos e deixam que a prioridade continue sendo o filho. Uma pessoa madura não estabelece uma competição com a criança ou adolescente. Tende a respeitar o espaço que é destinado ao filho.

Percebi com minha prática clínica muitos problemas nessa adaptação do padrasto ou madrasta, pois além da relação com o filho do parceiro, ainda o novo integrante precisa lidar com suas questões emocionais, como ciúme do ex-marido ou esposa, diferenças de hábitos e personalidades, implicâncias de muitos adolescentes que não aceitam o novo membro na família e etc.

É uma tarefa difícil para ambos os lados, mas ainda assim cabe ao adulto coordenar a orquestra. Mesmo no caso de adolescentes provocativos e enciumados, cabe ao adulto administrar a situação. Não adianta exigir que a criança não sinta o que está sentindo. A empatia precisa ser exercitada. Significa olhar pelo olhar do filho que se sente lesado e ameaçado com essa nova composição.

Acompanhei situações onde a madrasta não conseguia sentir amor pelo filho do casamento anterior e acabava competindo pela atenção do pai. Esse é um dos piores quadros possíveis, pois obriga o pai a escolher de que lado quer estar. O mais grave nisso tudo é que muitos pais acabam cedendo ao adulto imaturo e se deixam manipular pela mulher. Esta situação culmina no distanciamento do filho do pai e pior ainda, a sensação de rejeição por parte do pai. A criança sente que o pai escolheu outra família, que ele não é mais prioridade nas decisões dele. A autoestima dessa criança torna-se muito ruim e pode atrapalhar inclusive vínculos no futuro.

Realmente ao se colocar no lugar da criança é estranho pensar que o pai que deveria protegê-la e ajudar nas horas difíceis ou estar presente nas horas felizes está sempre priorizando seu novo relacionamento. Alguns percebem a manipulação da nova parceira, mas temem se posicionar a favor dos filhos e romper o relacionamento. Outros percebem e não sabem como lidar estando sempre em cima do muro, tentando conciliar os lados sem sucesso, outros percebem e acabam dando o poder de decisão para a nova mulher. Todas essas situações são ruins, pois os filhos não podem sentir que não são prioridade nas decisões do pai. Claro que o inverso também é verdadeiro para padrastos e neste caso às vezes a imposição de regras é ainda mais forte, pois na nossa cultura os homens ainda detém maior poder de decisão nas famílias. No caso de padrastos pode haver um clima ainda maior de rivalidade, pois são dois homens impondo regras e querendo “ganhar” a competição.

Mesmo quando os pais se enxergam saudáveis, uma pessoa de fora do ciclo familiar consegue perceber facilmente o clima de competição e ressentimento entre os adultos. As crianças sentem isso na pele e crescem pisando em ovos, nunca sabendo como a situação de fato prosseguirá. Os pais precisam ser autocríticos e realmente perceberem que os comportamentos tímidos ou agressivos dos filhos são sinais importantes de que as coisas não vão bem.

O pai ou a mãe devem estimular o novo cônjuge a lidar de forma madura com seus sentimentos. Deve também ressaltar que os filhos não serão preteridos de forma alguma e devem incentivar que a pessoa tenha paciência e tente entender o laço de amor e responsabilidade que unem pais e filhos. Se os pais não se posicionam e não educam esse novo parceiro(a), muitos problemas vão ocorrer e estão descritos no próximos tópicos:  ciúmes do antigo parceiro e brigas financeiras.

Ciúmes

Muitas separações ocorrem após a traição de um dos cônjuges e esta situação sempre será polêmica na vida da família. O ressentimento do traído certamente será refletido na condução da separação. Os filhos tendem a punir severamente o traidor e demoram a perdoar o responsável pela traição.

Suponhamos que neste caso a mãe é traída pelo pai e desenvolve um forte desejo de vingança da nova mulher que é vista como “ladra e sem caráter”. Sabemos que cada caso é um caso e os seres humanos nem sempre organizam seus sentimentos para ações corretas, mas a pessoa traída não deseja ter empatia pela pessoa que invadiu seu casamento. Neste momento ela ignora suas contribuições negativas para o fim do casamento e passa a desejar que o novo casal seja infeliz. Este quadro é muito negativo para os filhos, pois criam um julgamento da situação através do olhar da mãe traída e não conseguem mais avaliar a conduta do pai isoladamente. Eles enxergam um homem que traiu e não mais o PAI.

É comum que todo o grupo familiar passe a fazer muitas exigências como forma de punir o “traidor”. Neste caso são criadas duas facções e as famílias são desmanteladas. Se a pessoa traída não aceitar ou perdoar pode passar uma vida toda criando situações negativas para seu ex até mesmo sem perceber, e esse comportamento de cegueira e raiva, sendo consciente ou não, levará ao mal relacionamento dos filhos com o novo núcleo formado pelo padrasto ou madrasta.

A pessoa que foi responsável pela traição inicia com culpa e depois acaba sentindo raiva de tantas vinganças. Pode acabar assumindo o isolamento radical como forma de se proteger de acusações. Esse isolamento e falta de diálogo será péssimo para a condução da educação dos filhos. Mesmo que magoados ou traídos, os pais precisam conversar e dar prioridade ao bem estar dos filhos. Os adultos emocionalmente abalados acabam esquecendo que acima de tudo são modelos para seus filhos e quando não superam sentimentos negativos demonstram pouca maturidade.

A pessoa que está sendo agredida, por outro lado, precisa também entender a raiva e mágoa que provocou e ter paciência com surtos de raiva e ciúme. Acolher a dor desta pessoa é fundamental para que a raiva passe e o “traidor” prove que continuará sendo um bom pai, mesmo que não tenha agido da forma correta com a mulher. O mínimo que se espera de alguém que faz um corte no braço de alguém é que ela ajude a tratá-lo e aguarde sua cicatrização.

O ciúme pode aparecer do outro lado dessa história. Quando a mulher quis a separação e entra uma nova pessoa na vida deste que foi convidado a se retirar da casa. A nova namorada pode ficar desconfiada dos sentimentos do seu novo parceiro e passar a restringir o contato deste com sua antiga família. Quando ela não restringe de forma enfática, pode sutilmente tomar as rédeas das decisões para evitar que o namorado estabeleça contato com a ex-mulher. Como neste caso, o homem, sente-se fragilizado pela rejeição da ex-mulher, estabelece uma ligação de dependência afetiva com essa nova companheira, que passa por ciúme, a protegê-lo desta convivência.  Esta nova companheira pode acabar lesando a relação deste novo namorado com os filhos do primeiro casamento, mesmo que não tenha esta intenção, pois ela passa a ditar os limites e os filhos não sentem mais o domínio do pai na situação. A nova integrante acaba delimitando restrições também aos filhos, pois se sente ameaçada pelo sentimento que o seu parceiro possa reativar a qualquer momento.

Os filhos passam gradativamente por se afastarem, pois já não sentem que o pai tenha poder de decisão ou palavra nesta relação. É possível não reconhecerem mais a casa do pai como suas. Sentem que estão na casa da nova namorada.

Creio que nem sempre esse ciúme é reconhecido pelas pessoas. Muitos negam que tenham comportamentos egoístas ou infantis e acabam criando situações insustentáveis.  Novamente é necessária bastante autocrítica e autoconfiança para superar esse tipo de emoção.  O pai ou a mãe que percebem que estão se deixando liderar pelo novo parceiro, precisam abrir os olhos e mais uma vez defenderem suas relações com seus filhos a todo custo.

Quando o dinheiro entra em jogo

O pai normalmente se queixa de que depois da separação a ex-mulher só sabe pedir dinheiro. A resolução de pensões e mesadas é um ponto que precisa ser definido, pois naturalmente se o pai era o provedor da família, o impacto da sua saída de casa será enorme.

Atualmente muitas mulheres recebem seu próprio salário e conseguem pagar as contas da casa, mas quando existe a separação, o dinheiro que anteriormente era destinado para lazer ou viagens fica preso no orçamento básico da casa. Os filhos que eram acostumados com determinados padrões de gastos sofrerão alterações da rotina. Esta experiência pode ser benéfica quando ensina as crianças e adolescentes a consumirem de modo mais consciente. Também pode ser benéfica quando ensina o real valor do dinheiro no dia a dia familiar, mas se o pai mantém um padrão mais elevado de vida comparado ao da mãe, essa diferença pode ser sentida como rejeição por parte dos filhos.
       
        Os filhos são capazes de entender que o pai não precisa proporcionar à mãe as mesmas condições econômicas, mas quando existe conflito entre o casal, o ex-marido pode ter receio de fornecer dinheiro para os filhos e acabar beneficiando a ex-mulher. Nesta situação ele começa a restringir a ajuda financeira e acaba prejudicando o bem estar dos filhos.

       A situação pode se agravar muito mais quando são inseridos padrastos e madrastas, pois com a formação de uma nova família o pai (ou a mãe) precisam planejar seus gastos para sustentar dois núcleos familiares. A tarefa de manter o padrão similar dos dois lados torna-se um desafio e acaba sendo comum que os filhos passem a comparar as situações financeiras. Quando o antigo provedor consegue equilibrar os dois lados, tentando manter a condição dos filhos similar a condição do seu novo núcleo familiar, os danos e as brigas serão menores, mas quando os filhos começam a suspeitar que o pai se comporta de modo negligente às condições de vida deles muitas mágoas podem surgir.
               
           Parece mesmo que essa é uma questão de bom senso, mas muitos casos acabam gerando brigas eternas por questões financeiras. Mesmo quando existe um acordo jurídico, onde o juiz estipula a obrigação do pai em relação aos filhos, a mãe pode acabar arcando com mais obrigações e cuidados diários e muitas vezes precisa fornecer dinheiro para o lazer das crianças. Os adolescentes começam a consumir mais, começam a pedir dinheiro para saírem para festas, viagens, roupas e etc. É necessário que o diálogo entre os pais seja respeitoso para que esse equilíbrio seja alcançado. Quem ganha mais normalmente contribui mais? Deveria ser assim, mas a realidade infelizmente não retrata essa condição justa.

        O senso de justiça deve partir de cada indivíduo. O casal precisa reconhecer suas mágoas, rancores, medos e egoísmos. Punir o ex ou ficar paranoico por estar servindo de banco são comportamentos que só criarão sensações de rejeição na criança ou adolescente. Eu sempre recomendo que cada parte envolvida converse com amigos ou consulte um psicólogo para saber se está conseguindo ser justo na maneira de distribuir afeto e dinheiro. É necessário um exercício de autocrítica para realizar uma análise real de si mesmo:

                  - “Estou sendo justo com as condições financeiras em que deixei meus filhos?”

                - “Tenho raiva da minha ex e por isso não gosto de fornecer ajuda financeira para ela?”

                - “Às vezes não forneço dinheiro porque não quero mimar demais meus filhos que agora só me enxergam como um banco?”

                - “Tenho um padrão mais elevado que minha ex-mulher e tenho mais regalias do que ela e meus filhos?”

                - “Deveria conversar com meus filhos sobre como eles se sentem em relação a minha situação financeira?”

                São muitas questões que deveriam ser levantadas. Não existe certo e errado, mas manter a vida dos filhos similar à vida dos pais é importante para que eles saibam que são importantes e que não estão sendo negligenciados e nem prejudicados por causa da separação. Quando existe muita diferença econômica entre os cônjuges, na separação certamente esse será um item importante para ser debatido.

                Outro ponto controvertido é usar a privação de dinheiro como punição. Quando os pais são casados, pode haver um acordo de privar o filho de festas, vídeo game e mesada quando apresentam mal comportamento ou notas ruins na escola. Essa é uma maneira eficaz de punir e, naturalmente, os filhos tendem a melhorar para recuperar esses prazeres, porém quando os pais são separados a privação financeira pode ser difícil, já que em boa parte dos casos o dinheiro extra pode vir do ex-marido. Novamente o casal precisa respeitar a maneira de estipular as punições, pois esse não será um método eficaz se ao chegar na casa do pai, os filhos obtém dinheiro de forma irrestrita. A punição que é dada pela mãe é completamente ignorada e a educação começa a ficar comprometida.

                Tantas variações difíceis podem acontecer por causa de dinheiro. Quando os filhos usam a boa condição financeira do pai (ou mãe) para fazer chantagem emocional é hora dos pais ficarem alertas. Usar a situação delicada da separação para ter vantagens pessoais pode indicar raiva dos filhos. É como se o filho quisesse medir o amor dos pais através de quanto eles disponibilizam. Se a pessoa mais abastada passa a fornecer dinheiro para provar que está sendo presente pode criar um dos piores quadros possíveis, pois o filho não saberá administrar sua raiva e ainda desenvolverá um comportamento egoísta e manipulador.

Outra situação é quando o cônjuge que está mais ausente fornece dinheiro em troca de afeto e atenção. Para manter o interesse dos filhos os pais podem oferecer presentes e viagens.  Por outro lado também podem privar os filhos de dinheiro quando não se sentem procurados pelos filhos. Esta situação também é péssima, pois a obrigação de cativar os filhos e mantê-los por perto é dos adultos. Se os filhos não sabem como se comportar diante da separação, quando se sentem visitas na casa de um dos pais, ou não se preocupam em estar próximos dos pais com certeza alguma coisa está errada. Neste caso eles não precisam de punição, mas sim de serem compreendidos. Usar a desculpa da adolescência e da rebeldia para explicar esse afastamento é uma maneira errada de resolver a situação.

Os pais precisam sempre entender que os filhos não devem ser divididos ao meio. A responsabilidade para manter o vínculo sadio mesmo com a distância é dos pais e os filhos não devem escutar opiniões negativas sobre nenhum dos lados. Muitas audiências jurídicas acabam não sendo justas e a mãe ou o pai acabam sendo lesados de alguma maneira, porém essa mágoa não deve ser transferida para os filhos. A maturidade do casal consiste na habilidade de manter a calma e administrar ressentimentos sem envolver os filhos.


Os filhos são crianças que precisam ser protegidas dos problemas do mundo. Os filhos precisam confiar que seus pais saberão protegê-los. Quando esses que deveriam protegê-los são aqueles que incutem a raiva, a mágoa ou o medo não poderíamos dizer que estão sendo bons pais. Estes pais não apenas estão falhando, como estão lesando profundamente a psique das crianças que precisariam estar desenvolvendo coragem e boa autoestima para enfrentar seus problemas no futuro.