terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Orientação Vocacional e Profissional

            

A Orientação Vocacional e profissional (OVP) pode ser entendida como um processo pelo qual o indivíduo é auxiliado e orientado para que possa descobrir e realizar sua vocação pessoal.

 - Confira as dicas de vídeos no final da postagem -

Profissão diz respeito a trabalho, atividade especializada, emprego, ocupação, modo de ganhar a vida. Vocação indica tendência espontânea, inclinação natural.
            
Pela orientação profissional procura-se fazer com que o orientado perceba quais as suas aptidões e deficiências, e que conheça os dados necessários sobre as profissões abertas à sua cogitação. Assim ele escolherá uma profissão, ou grupos de profissões correlatas, e planejará como ingressar e progredir nelas.
            
A Orientação Vocacional busca ajudar uma pessoa a conhecer-se a si mesma, pela indicação de suas possibilidades, limitações, aptidões, tendências e aspirações; reconhecer sua vocação pessoal; decidir como realizar sua inclinação vocacional, o que inclui a profissão a escolher e a educação que se faz conveniente para o ingresso na profissão.
       
A orientação Vocacional e Profissional nasceu como atividade sistematizada e especializada nos Estados Unidos, quando o professor Frank Parsons, em 1908, fundou um Vocation Bureau, ( Gabinete Vocacional) e no ano seguinte publicou seu livro pioneiro intitulado Choosing a Vocation ( A Escolha de uma Vocação). Em 1913, foi fundada naquele país a Associação Nacional de Orientação Vocacional.
        
O caminho desta prática foi influenciado por questões culturais tais como o renascimento e a reforma, pois antes destes acontecimentos o homem tinha pouca liberdade de escolha. Depois da Segunda Guerra Mundial, muitos homens e mulheres precisaram de ajuda para retornar ao emprego civil, e os problemas individuais de escolha ocupacional foram vistos como um fator da readaptação do país à economia em tempo de paz.
           
A implantação da democracia na sociedade industrial contribuiu para uma relativa liberdade na escolha das ocupações, dando maior  liberdade de escolha para a juventude contemporânea, surgindo então a orientação vocacional.
           
Diante dessas influências  economistas, sociólogos e psicólogos se interessaram pela sistematização da coleta e pela análise da informação concernente à educação e às ocupações. Alguns métodos de análise do trabalho foram criados por psicó­logos como Morris Viteles, para mostrar as presumidas exigências de aptidão de vários empregos.
            
Mais tarde, quando os testes foram sendo aplicados ao estudo das ocupações, no trabalho pioneiro da Universidade de Minnesota, durante a depressão de 1930, a análise do trabalho se tornou mais objetiva.
           
Um dos pontos que objetivaram este estudo foi a elaboração de testes, que como informação educacional e ocupacional,  tornam-se um recurso a ser explorado na procura conjunta de informações relevantes para uma determinada questão. A seleção dos testes a serem aplicados passou a ser vista como uma decisão que requer a cooperação ativa e a participação consciente do cliente, que utiliza o orientador como consultor.
           
A orientação vocacional, hoje em dia, é resultado de certo número de movimentos que tiveram, no começo, o propósito formal de auxiliar os jovens na seleção de ocupações adequadas. Coletou-se e organizou-se a informação para tornar o processo mais eficiente, e passaram a ser sistematicamente explorados todos os avanços que se faziam nos testes psicológicos. Mais recentemente, a educação e a orientação vocacional incorporaram conhecimentos referentes à saúde mental. Originou-se daí uma abordagem ao desenvolvimento humano que implica a adaptação ao trabalho como um aspecto fundamental da imagem global da vida de uma pessoa.

A O.V.P é, portanto, um ramo da psicologia aplicada e constitui um conjunto de conhecimentos sobre Psicologia, Sociologia, profissões e estrutura educacional e profissional do país e da comunidade, bem como  de métodos e técnicas psicológicas adequadas ao estudo e solução dos problemas referentes à vocação e à escolha das profissões.

Através de testes, questionários, provas, exames e entrevistas, o psicólogo ou especialista em orientação vocacional e profissional faz o levantamento de vários atributos e dados pessoais do orientado, tais como inteligência, aptidões, habilidades, interesses, aspirações, personalidade, temperamento, relacionamento familiar, histórico biográfico e educacional, planos educacionais e profissionais. Procura também proporcionar-lhe ou promover a obtenção de informações referentes ao mundo do trabalho ( profissões, carreiras, áreas de profissões correlatas ou famílias profissionais) e relativas às necessidades e oportunidades de educação e instrução relacionadas com a vocação e profissões consideradas. E, finalmente,  realiza uma orientação no sentido de compreender e integrar aqueles dados e estas informações, de modo que consiga traduzi-los em escolha, ou conveniente decisão vocacional e profissional.
            
O processo de orientação vocacional e profissional começa normalmente no início da adolescência, com a focalização do problema em termos amplos de áreas vocacionais profissionais, em que se procura a orientação para grupos ou famílias de profissões correlatas e para uma vocação ainda não muito definida nem definitiva quanto a profissões específicas.
            
As profissões são inicialmente cogitadas apenas em seus grupamentos gerais, o suficiente para delinear uma tendência para escolha e uma linha de vocação, permitindo, desse modo, considerar os aspectos correlatos referentes ao problema mais imediato da educação, cursos e estudos a escolher, como fases de um preparação para a futura  opção e vida profissional.
            
O processo de orientação deve prosseguir, através de uma focalização progressiva cada vez mais centralizada e definida em termos de escolha da profissão que seja a melhor solução para o problema da vocação, cogitada em termos mais amplos na fase anterior.
            
As épocas ideais para orientação vocacional dentro do contexto escolar são as que correspondem, primeiramente, à antiga 8ª série e 2ª série do segundo grau, sendo que deve ser feita a partir de idades em que  as aptidões, interesses, preferências e aspirações do indivíduo estejam em estágio de desenvolvimento ou maturação que permita a sua avaliação objetiva e digna de confiança. Em condições gerais ou mais comuns, esse desenvolvimento e maturação, para tais fins, não sucederão antes dos treze anos.
          
Muitos aspectos importantes para adequada orientação vocacional e boa escolha profissional só estão suficientemente amadurecidos ou definidos no fim na adolescência – fase do desenvolvimento cuja duração cronológica varia de indivíduo para indivíduo, mais ou menos entre 18 e 20 anos – razão pela qual certas decisões vocacionais só devem ser fixadas nessa ocasião.  

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Sites sugeridos para pesquisa de profissões:


Canal TV UFPR youtube - programa vocação. No youtube eles apresentam diversos cursos de forma bem detalhada. 


Canal UFPR TV - Vocações


Canal TV Unesp no youtube, apresenta um excelente resumo das áreas com entrevistas bem esclarecedoras. Guia de profissões:


Canal TV Unesp - guia de profissões

Site com textos detalhados sobre as diferentes áreas:

Guia de profissões:  http://guiadoestudante.abril.com.br/profissoes/



terça-feira, 24 de novembro de 2015

Documentários sobre ciência - neurociências e anatomia



Documentário O Cérebro - History Channel




Documentário O corpo humano - BBC




Ciência e Tecnologia, os segredos do 
cérebro humano - Globo News




Os Super Humanos - documentário 2012




Dor e Prazer - Documentário BBC - 2011




O Cérebro Inconsciente - episódio 1




O Cérebro Inconsciente - episódio 2




O Cérebro - History Channel




A incrível máquina humana - National Geographic


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

TPM e alterações de humor

A complexa relação entre hormônios e humor. Esse artigo demonstra estudos e pesquisas na área.
Mulheres que já sofrem com depressão e ansiedade podem sentir seus sintomas ampliados nesse período. Se quiserem continuar pesquisando no Blog abram nova guia para ler o artigo.

Premenstrual dysphoric disorder review: concept, history, epidemiology and etiology

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A separação e seus danos


Neste texto quero abordar o assunto da separação dos pais e o impacto desta separação nos filhos. Nos meus 12 anos de atividade clínica, presenciei diversas situações familiares. Famílias que funcionavam sem pai, outras sem mãe, outras somente com avós, outras com apenas tios e tias e outras que funcionavam bem e mal com pai e a mãe juntos na mesma casa.

Essa variedade de relações dentro de um lar promove diferentes efeitos em todos os membros de uma família. Quando os pais são unidos e coerentes tudo fica mais fácil, mas hoje em dia a tarefa de comandar uma família está cada vez mais difícil.

A decisão pelo divórcio às vezes é a melhor saída para determinadas situações. Permanecer juntos num ambiente de brigas e insultos pode ter um impacto muito mais negativo nos filhos. Os seres humanos possuem uma forte tendência para a autodefesa. Diante de conflitos é muito natural que cada pessoa queira “defender o seu peixe”. Enxergar os próprios defeitos e admiti-los para outra pessoa é um comportamento nobre, digno de pessoas muito conscientes e esclarecidas. Sendo assim, o que encontramos no cotidiano são brigas feitas de acusações do tipo: quem erra mais?

Essa tendência humana em se esquivar e de negar falhas, faz crescer o olhar crítico para os erros dos outros. Eu poderia afirmar que muitos conflitos entre casais iniciam com pequenas teimosias; uma inflexibilidade em fazer mudanças que beneficiem o outro. O projeto familiar começa a se dissolver quando o casal demonstra que possui diversos pontos de imaturidade.

A perfeição é algo impossível de ser atingida. Seria impossível um ser humano executar todas suas atividades com exatidão em cada contexto. Temos oscilações de humor, confundimos nossos sentimentos e desejos, criamos expectativas falsas em relação às pessoas e situações. Além dessa oscilação individual ainda existe a combinação de interesses dentro de uma família. O conceito de correto e perfeito para cada família é muito diferente e esta combinação de diversas pessoas, com suas próprias oscilações, torna a tarefa da convivência uma arte complexa e às vezes caótica.

De alguma maneira a vida segue e as peças vão se encaixando, como num caminhão de abóboras em movimento, mas quais são as situações onde os conflitos prejudicam diretamente a personalidade dos filhos?

Qual é afinal o papel dos pais na formação da personalidade dos filhos?

Quando um casal decide se separar, quais os cuidados que devem ter para evitar danos na relação e na autoestima de seus filhos?

Essas questões são fundamentais para que a decisão dos pais não afete negativamente o desenvolvimento das crianças e adolescentes. Mesmo que um casal decida permanecer unido, precisa avaliar a forma da convivência, pois brigas, xingamentos e desrespeito são os maiores vilões dessa história. Separados ou unidos, os pais necessitam de maturidade para entender que a responsabilidade de pais é maior do que o interesse individual de cada parte como marido ou esposa.

A criança no meio do tiroteio

Muitos pais inflamados com sentimentos de raiva e decepção ficam tão cegos que não percebem que demonstram essa raiva para os filhos. Os filhos precisam dos pais e não precisam decidir, como numa audiência, de que lado eles querem estar. Falar mal um do outro para os filhos é uma atividade extremamente danosa. As crianças e adolescentes precisam se sentir seguras, confiar que os adultos saberão resolver os problemas enquanto são incapazes de tomar decisões.

Quando o pai ou a mãe tentam explicar ao filho o lado ruim do outro isso só torna a criança mais insegura, pois ela percebe claramente a imaturidade dos pais e teme ser prejudicada pelos defeitos que ambos os lados se acusam. Saber lidar com raiva e decepção é uma habilidade psicológica importante para os pais. Pessoas bélicas, impulsivas, reativas tendem a perder a calma e acabam expondo seus conflitos na frente dos filhos. A criança não deve ser um juiz que decide a audiência, ela precisa ser protegida de emoções negativas muito intensas e que fogem ao controle dela resolver.

Dia de visita

Normalmente a guarda dos filhos fica com a mãe, então o pai tem os dias certos ou o final de semana para ficar com seus filhos. É muito importante respeitar essa divisão, pois o pai acaba tendo menos contato com o filho e pode acontecer um distanciamento pela falta de convivência. Além de manter o contato na visita é fundamental que o pai (ou em alguns casos a mãe) ligue para o filho com frequência, para mostrar interesse pelo dia a dia da criança. Alguns pais dedicam-se apenas ao dia da visita ou ao final de semana “dele” e a convivência também fica fria e distante. A criança não deve se sentir visita na casa do pai. Precisa ter intimidade e espontaneidade para dizer o que está sentindo. Se não fala muito ou resmunga é porque algo deve estar errado.

Na adolescência é ainda mais difícil, pois os eventos com os colegas geralmente ocorrem no final de semana. Se o acordo estabelecido é no final de semana, pode ser a hora de flexibilizar essa regra. Transformar a permanência em casa num almoço, ou uma pizza a noite pode ser mais eficaz do que obrigar o adolescente a ficar com o pai e perder o encontro com os amigos. Almoços ou jantares durante a semana também podem ser eficazes para colocar a conversa em dia.
Certamente a adolescência necessita de limites, obediência, mas isso precisa ser feito com bom senso. Se o adolescente está seguindo essa fase de forma branda e educada ele deve ser ouvido para que a boa relação entre pai e filho permaneça saudável.

Casas com regras diferentes

Após a separação cada um seguirá sua vida com suas próprias regras no lar. Uma diferença muito brutal de hábitos de uma casa para outra pode ser negativa se for imposta de forma autoritária. Normalmente o costume dos filhos é muito mais coerente com o ambiente onde ele fica mais tempo (na casa da mãe na maioria dos casos). Esse é um item que normalmente gera muito atrito entre o casal, pois novamente começam a apontar os erros na rotina de cada casa. Se os pais tem um bom relacionamento fica mais fácil debater sobre a melhor maneira de realizar determinados rituais em casa como horário de dormir, hora de estudar e fazer tarefa, hora de comer, organização de roupas, participação na limpeza da casa e etc.

Quando existem mágoas e ressentimentos esse já é um pretexto para desqualificar o antigo companheiro. Os pais começam as trocas de acusações. É muito importante que os pais percebam e tenham maturidade para admitir que enquanto “alfinetam” o antigo parceiro é porque ainda não resolveram suas questões emocionais ou porque ainda querem competir para ver quem se sai melhor na educação. Essa também é uma atitude imatura, pois nenhum consenso pode ser estabelecido na base da competição:

- Sua mãe deixa você dormir tarde para facilitar a vida dela de manhã cedo!

- Seu pai não te ensina a arrumar as coisas em casa, vai virar um vagabundo!

- Seu pai fica dando presentes caros para você gostar mais dele, não está nem aí que você “vai mal” na escola!

- Sua mãe está sempre atrasada, é uma desorganizada, por isso você está desse jeito!

- Aqui em casa você estuda muito mais porque tem regras, na casa da sua mãe é uma bagunça!

Poderíamos fazer um livro só com esse tipo de frase. Muitos pais devem reconhecer que fazem esse tipo de comparação o tempo todo. Isso acontece até mesmo quando ainda moram juntos, mas já estão em conflito.

Novamente não podemos exagerar. Alguns conflitos são normais e fazem parte do cotidiano. O grave neste caso é a insistência em apontar o defeito do outro. Não existe uma crítica saudável se não for feita de forma gentil e educada. Existe sim COMPETIÇÃO e os filhos já não sabem mais qual o ambiente mais saudável para ele. Se os pais não conseguem dialogar e chegar num acordo, é necessário que haja respeito pelo ambiente criado pelo seu antigo parceiro e caso identifiquem algum hábito muito ruim devem dialogar longe dos filhos.

As crianças se adaptam as diferenças, sabem reconhecer a personalidade de cada um e tendem a respeitar quando possuem bom relacionamento com ambas as partes. Não há necessidade de escolher o MELHOR ambiente. O mais importante é que ela admire os pais, cada um a sua maneira. Se a rotina do pai é muito diferente da mãe, e o filho manifestar desconforto, é necessário que o pai reveja algumas posições e tente deixar o ambiente mais próximo do filho. A criança ou adolescente podem sentir as diferenças, mas precisam se sentir à vontade em ambas as casas.

Padrasto ou madrasta

Este é outro ponto delicado, pois é a entrada de mais uma pessoa com novas regras e oscilações de humor no ambiente da criança. Esta nova pessoa não apenas entra com sua personalidade, hábitos e regras, como passa a opinar na educação e na rotina da casa. Cabe aqui muita sabedoria e maturidade dos pais para entender os sentimentos dos filhos.

Muitas vezes os pais querem que o filho aceite de uma hora para outra a presença de uma terceira pessoa, quando ainda mal se adaptou a separação. Quando a separação é recente as crianças também se sentem ressentidas e sentem que também foram lesadas. Os filhos podem sentir ciúmes por tomar as dores do pai ou da mãe, podem se sentir ameaçados com a presença de uma nova pessoa que além de roubar a atenção, também vai colocar regras que não pertencem à personalidade do pai ou da mãe.

A personalidade desse novo membro na família é um fator decisivo nessa composição, pois pessoas mais maduras tendem a perceber a situação e serem mais sutis na adaptação tentando interferir menos e deixam que a prioridade continue sendo o filho. Uma pessoa madura não estabelece uma competição com a criança ou adolescente. Tende a respeitar o espaço que é destinado ao filho.

Percebi com minha prática clínica muitos problemas nessa adaptação do padrasto ou madrasta, pois além da relação com o filho do parceiro, ainda o novo integrante precisa lidar com suas questões emocionais, como ciúme do ex-marido ou esposa, diferenças de hábitos e personalidades, implicâncias de muitos adolescentes que não aceitam o novo membro na família e etc.

É uma tarefa difícil para ambos os lados, mas ainda assim cabe ao adulto coordenar a orquestra. Mesmo no caso de adolescentes provocativos e enciumados, cabe ao adulto administrar a situação. Não adianta exigir que a criança não sinta o que está sentindo. A empatia precisa ser exercitada. Significa olhar pelo olhar do filho que se sente lesado e ameaçado com essa nova composição.

Acompanhei situações onde a madrasta não conseguia sentir amor pelo filho do casamento anterior e acabava competindo pela atenção do pai. Esse é um dos piores quadros possíveis, pois obriga o pai a escolher de que lado quer estar. O mais grave nisso tudo é que muitos pais acabam cedendo ao adulto imaturo e se deixam manipular pela mulher. Esta situação culmina no distanciamento do filho do pai e pior ainda, a sensação de rejeição por parte do pai. A criança sente que o pai escolheu outra família, que ele não é mais prioridade nas decisões dele. A autoestima dessa criança torna-se muito ruim e pode atrapalhar inclusive vínculos no futuro.

Realmente ao se colocar no lugar da criança é estranho pensar que o pai que deveria protegê-la e ajudar nas horas difíceis ou estar presente nas horas felizes está sempre priorizando seu novo relacionamento. Alguns percebem a manipulação da nova parceira, mas temem se posicionar a favor dos filhos e romper o relacionamento. Outros percebem e não sabem como lidar estando sempre em cima do muro, tentando conciliar os lados sem sucesso, outros percebem e acabam dando o poder de decisão para a nova mulher. Todas essas situações são ruins, pois os filhos não podem sentir que não são prioridade nas decisões do pai. Claro que o inverso também é verdadeiro para padrastos e neste caso às vezes a imposição de regras é ainda mais forte, pois na nossa cultura os homens ainda detém maior poder de decisão nas famílias. No caso de padrastos pode haver um clima ainda maior de rivalidade, pois são dois homens impondo regras e querendo “ganhar” a competição.

Mesmo quando os pais se enxergam saudáveis, uma pessoa de fora do ciclo familiar consegue perceber facilmente o clima de competição e ressentimento entre os adultos. As crianças sentem isso na pele e crescem pisando em ovos, nunca sabendo como a situação de fato prosseguirá. Os pais precisam ser autocríticos e realmente perceberem que os comportamentos tímidos ou agressivos dos filhos são sinais importantes de que as coisas não vão bem.

O pai ou a mãe devem estimular o novo cônjuge a lidar de forma madura com seus sentimentos. Deve também ressaltar que os filhos não serão preteridos de forma alguma e devem incentivar que a pessoa tenha paciência e tente entender o laço de amor e responsabilidade que unem pais e filhos. Se os pais não se posicionam e não educam esse novo parceiro(a), muitos problemas vão ocorrer e estão descritos no próximos tópicos:  ciúmes do antigo parceiro e brigas financeiras.

Ciúmes

Muitas separações ocorrem após a traição de um dos cônjuges e esta situação sempre será polêmica na vida da família. O ressentimento do traído certamente será refletido na condução da separação. Os filhos tendem a punir severamente o traidor e demoram a perdoar o responsável pela traição.

Suponhamos que neste caso a mãe é traída pelo pai e desenvolve um forte desejo de vingança da nova mulher que é vista como “ladra e sem caráter”. Sabemos que cada caso é um caso e os seres humanos nem sempre organizam seus sentimentos para ações corretas, mas a pessoa traída não deseja ter empatia pela pessoa que invadiu seu casamento. Neste momento ela ignora suas contribuições negativas para o fim do casamento e passa a desejar que o novo casal seja infeliz. Este quadro é muito negativo para os filhos, pois criam um julgamento da situação através do olhar da mãe traída e não conseguem mais avaliar a conduta do pai isoladamente. Eles enxergam um homem que traiu e não mais o PAI.

É comum que todo o grupo familiar passe a fazer muitas exigências como forma de punir o “traidor”. Neste caso são criadas duas facções e as famílias são desmanteladas. Se a pessoa traída não aceitar ou perdoar pode passar uma vida toda criando situações negativas para seu ex até mesmo sem perceber, e esse comportamento de cegueira e raiva, sendo consciente ou não, levará ao mal relacionamento dos filhos com o novo núcleo formado pelo padrasto ou madrasta.

A pessoa que foi responsável pela traição inicia com culpa e depois acaba sentindo raiva de tantas vinganças. Pode acabar assumindo o isolamento radical como forma de se proteger de acusações. Esse isolamento e falta de diálogo será péssimo para a condução da educação dos filhos. Mesmo que magoados ou traídos, os pais precisam conversar e dar prioridade ao bem estar dos filhos. Os adultos emocionalmente abalados acabam esquecendo que acima de tudo são modelos para seus filhos e quando não superam sentimentos negativos demonstram pouca maturidade.

A pessoa que está sendo agredida, por outro lado, precisa também entender a raiva e mágoa que provocou e ter paciência com surtos de raiva e ciúme. Acolher a dor desta pessoa é fundamental para que a raiva passe e o “traidor” prove que continuará sendo um bom pai, mesmo que não tenha agido da forma correta com a mulher. O mínimo que se espera de alguém que faz um corte no braço de alguém é que ela ajude a tratá-lo e aguarde sua cicatrização.

O ciúme pode aparecer do outro lado dessa história. Quando a mulher quis a separação e entra uma nova pessoa na vida deste que foi convidado a se retirar da casa. A nova namorada pode ficar desconfiada dos sentimentos do seu novo parceiro e passar a restringir o contato deste com sua antiga família. Quando ela não restringe de forma enfática, pode sutilmente tomar as rédeas das decisões para evitar que o namorado estabeleça contato com a ex-mulher. Como neste caso, o homem, sente-se fragilizado pela rejeição da ex-mulher, estabelece uma ligação de dependência afetiva com essa nova companheira, que passa por ciúme, a protegê-lo desta convivência.  Esta nova companheira pode acabar lesando a relação deste novo namorado com os filhos do primeiro casamento, mesmo que não tenha esta intenção, pois ela passa a ditar os limites e os filhos não sentem mais o domínio do pai na situação. A nova integrante acaba delimitando restrições também aos filhos, pois se sente ameaçada pelo sentimento que o seu parceiro possa reativar a qualquer momento.

Os filhos passam gradativamente por se afastarem, pois já não sentem que o pai tenha poder de decisão ou palavra nesta relação. É possível não reconhecerem mais a casa do pai como suas. Sentem que estão na casa da nova namorada.

Creio que nem sempre esse ciúme é reconhecido pelas pessoas. Muitos negam que tenham comportamentos egoístas ou infantis e acabam criando situações insustentáveis.  Novamente é necessária bastante autocrítica e autoconfiança para superar esse tipo de emoção.  O pai ou a mãe que percebem que estão se deixando liderar pelo novo parceiro, precisam abrir os olhos e mais uma vez defenderem suas relações com seus filhos a todo custo.

Quando o dinheiro entra em jogo

O pai normalmente se queixa de que depois da separação a ex-mulher só sabe pedir dinheiro. A resolução de pensões e mesadas é um ponto que precisa ser definido, pois naturalmente se o pai era o provedor da família, o impacto da sua saída de casa será enorme.

Atualmente muitas mulheres recebem seu próprio salário e conseguem pagar as contas da casa, mas quando existe a separação, o dinheiro que anteriormente era destinado para lazer ou viagens fica preso no orçamento básico da casa. Os filhos que eram acostumados com determinados padrões de gastos sofrerão alterações da rotina. Esta experiência pode ser benéfica quando ensina as crianças e adolescentes a consumirem de modo mais consciente. Também pode ser benéfica quando ensina o real valor do dinheiro no dia a dia familiar, mas se o pai mantém um padrão mais elevado de vida comparado ao da mãe, essa diferença pode ser sentida como rejeição por parte dos filhos.
       
        Os filhos são capazes de entender que o pai não precisa proporcionar à mãe as mesmas condições econômicas, mas quando existe conflito entre o casal, o ex-marido pode ter receio de fornecer dinheiro para os filhos e acabar beneficiando a ex-mulher. Nesta situação ele começa a restringir a ajuda financeira e acaba prejudicando o bem estar dos filhos.

       A situação pode se agravar muito mais quando são inseridos padrastos e madrastas, pois com a formação de uma nova família o pai (ou a mãe) precisam planejar seus gastos para sustentar dois núcleos familiares. A tarefa de manter o padrão similar dos dois lados torna-se um desafio e acaba sendo comum que os filhos passem a comparar as situações financeiras. Quando o antigo provedor consegue equilibrar os dois lados, tentando manter a condição dos filhos similar a condição do seu novo núcleo familiar, os danos e as brigas serão menores, mas quando os filhos começam a suspeitar que o pai se comporta de modo negligente às condições de vida deles muitas mágoas podem surgir.
               
           Parece mesmo que essa é uma questão de bom senso, mas muitos casos acabam gerando brigas eternas por questões financeiras. Mesmo quando existe um acordo jurídico, onde o juiz estipula a obrigação do pai em relação aos filhos, a mãe pode acabar arcando com mais obrigações e cuidados diários e muitas vezes precisa fornecer dinheiro para o lazer das crianças. Os adolescentes começam a consumir mais, começam a pedir dinheiro para saírem para festas, viagens, roupas e etc. É necessário que o diálogo entre os pais seja respeitoso para que esse equilíbrio seja alcançado. Quem ganha mais normalmente contribui mais? Deveria ser assim, mas a realidade infelizmente não retrata essa condição justa.

        O senso de justiça deve partir de cada indivíduo. O casal precisa reconhecer suas mágoas, rancores, medos e egoísmos. Punir o ex ou ficar paranoico por estar servindo de banco são comportamentos que só criarão sensações de rejeição na criança ou adolescente. Eu sempre recomendo que cada parte envolvida converse com amigos ou consulte um psicólogo para saber se está conseguindo ser justo na maneira de distribuir afeto e dinheiro. É necessário um exercício de autocrítica para realizar uma análise real de si mesmo:

                  - “Estou sendo justo com as condições financeiras em que deixei meus filhos?”

                - “Tenho raiva da minha ex e por isso não gosto de fornecer ajuda financeira para ela?”

                - “Às vezes não forneço dinheiro porque não quero mimar demais meus filhos que agora só me enxergam como um banco?”

                - “Tenho um padrão mais elevado que minha ex-mulher e tenho mais regalias do que ela e meus filhos?”

                - “Deveria conversar com meus filhos sobre como eles se sentem em relação a minha situação financeira?”

                São muitas questões que deveriam ser levantadas. Não existe certo e errado, mas manter a vida dos filhos similar à vida dos pais é importante para que eles saibam que são importantes e que não estão sendo negligenciados e nem prejudicados por causa da separação. Quando existe muita diferença econômica entre os cônjuges, na separação certamente esse será um item importante para ser debatido.

                Outro ponto controvertido é usar a privação de dinheiro como punição. Quando os pais são casados, pode haver um acordo de privar o filho de festas, vídeo game e mesada quando apresentam mal comportamento ou notas ruins na escola. Essa é uma maneira eficaz de punir e, naturalmente, os filhos tendem a melhorar para recuperar esses prazeres, porém quando os pais são separados a privação financeira pode ser difícil, já que em boa parte dos casos o dinheiro extra pode vir do ex-marido. Novamente o casal precisa respeitar a maneira de estipular as punições, pois esse não será um método eficaz se ao chegar na casa do pai, os filhos obtém dinheiro de forma irrestrita. A punição que é dada pela mãe é completamente ignorada e a educação começa a ficar comprometida.

                Tantas variações difíceis podem acontecer por causa de dinheiro. Quando os filhos usam a boa condição financeira do pai (ou mãe) para fazer chantagem emocional é hora dos pais ficarem alertas. Usar a situação delicada da separação para ter vantagens pessoais pode indicar raiva dos filhos. É como se o filho quisesse medir o amor dos pais através de quanto eles disponibilizam. Se a pessoa mais abastada passa a fornecer dinheiro para provar que está sendo presente pode criar um dos piores quadros possíveis, pois o filho não saberá administrar sua raiva e ainda desenvolverá um comportamento egoísta e manipulador.

Outra situação é quando o cônjuge que está mais ausente fornece dinheiro em troca de afeto e atenção. Para manter o interesse dos filhos os pais podem oferecer presentes e viagens.  Por outro lado também podem privar os filhos de dinheiro quando não se sentem procurados pelos filhos. Esta situação também é péssima, pois a obrigação de cativar os filhos e mantê-los por perto é dos adultos. Se os filhos não sabem como se comportar diante da separação, quando se sentem visitas na casa de um dos pais, ou não se preocupam em estar próximos dos pais com certeza alguma coisa está errada. Neste caso eles não precisam de punição, mas sim de serem compreendidos. Usar a desculpa da adolescência e da rebeldia para explicar esse afastamento é uma maneira errada de resolver a situação.

Os pais precisam sempre entender que os filhos não devem ser divididos ao meio. A responsabilidade para manter o vínculo sadio mesmo com a distância é dos pais e os filhos não devem escutar opiniões negativas sobre nenhum dos lados. Muitas audiências jurídicas acabam não sendo justas e a mãe ou o pai acabam sendo lesados de alguma maneira, porém essa mágoa não deve ser transferida para os filhos. A maturidade do casal consiste na habilidade de manter a calma e administrar ressentimentos sem envolver os filhos.


Os filhos são crianças que precisam ser protegidas dos problemas do mundo. Os filhos precisam confiar que seus pais saberão protegê-los. Quando esses que deveriam protegê-los são aqueles que incutem a raiva, a mágoa ou o medo não poderíamos dizer que estão sendo bons pais. Estes pais não apenas estão falhando, como estão lesando profundamente a psique das crianças que precisariam estar desenvolvendo coragem e boa autoestima para enfrentar seus problemas no futuro.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Psicodiagnóstico Cognitivo-Comportamental



O psicodiagnóstico realizado na área cognitivo-comportamental tem o propósito de avaliar o comportamento e sua relação funcional com o ambiente.  A noção de comportamento nesta abordagem refere-se a um conceito amplo onde o comportamento não significa apenas uma ação física ou verbal, mas sim uma relação complexa entre pensamentos, ações e sensações dentro de contingências reforçadoras ou punitivas. Na abordagem comportamental os sintomas são descritos como comportamentos disfuncionais que apresentam determinados padrões. Muitos destes padrões são descritos nos manuais de transtornos mentais (DSM e CID), que acabaram servindo de referência para definições diagnósticas e comunicação clara entre profissionais da saúde. O psicodiagnóstico possibilita que o profissional conheça as variáveis envolvidas na queixa do cliente e estabeleça as diretrizes de tratamento de acordo com sua linha de atuação.
       
Na prática clínica a entrevista é utilizada para que o profissional possa reconhecer a descrição da queixa do cliente e os motivos da procura ou encaminhamento para um tratamento psicológico. Após o acolhimento das queixas iniciais é importante a investigação do histórico de vida do paciente, pois assim podem ser identificadas as relações deste indivíduo na sua infância e adolescência e como foram estabelecidas as contingências (reforçadoras e punitivas) na formação de condicionamentos. O propósito desta avaliação é completamente diferente das abordagens psicodinâmicas. Este histórico visa à compreensão de condicionamentos que podem estar ainda atuantes na vida presente do cliente, mas não será o foco das estratégias comportamentais posteriores.  Antes de iniciar uma intervenção clínica é preciso verificar quais são os possíveis desencadeadores de sensações, ações ou pensamentos disfuncionais e que trazem prejuízos pessoais e sociais na vida do cliente. Apesar de existirem divergências teóricas entre a teoria cognitiva e a comportamental, na prática clínica o enfoque na avaliação de pensamentos automáticos e crenças centrais revelou-se um importante trabalho na busca de distorções cognitivas que influenciam ações e sensações. Os psicólogos cognitivistas enfatizam a importância de uma correta avaliação de padrões de pensamentos para posterior modificação destes pensamentos com intervenções cognitivas. Para avaliação destas crenças são utilizados questionários e escalas. 

Normalmente após definir as hipóteses diagnósticas e mapear os padrões disfuncionais, o terapeuta e o cliente estabelecem um foco para o trabalho terapêutico. No decorrer do processo algumas escalas podem ser utilizadas para ajudar a mensurar os progressos realizados e iniciar novos planos terapêuticos. O psicólogo também pode utilizar estes instrumentos para reavaliar hipóteses diagnósticas e alterar o curso de estratégias que se apresentaram pouco eficazes. Vale lembrar que os questionários e escalas não devem ser aplicados de modo mecânico, pois dentro de um processo cognitivo-comportamental os comportamentos emitidos pelo terapeuta fazem parte das contingências reforçadoras do tratamento, principalmente na fase inicial onde o vínculo positivo deve ser estabelecido. A forma de coletar as informações deve sempre ocorrer dentro de um contexto empático e acolhedor para facilitar que o cliente se envolva nesta investigação e se sinta motivado para enfrentar mudanças no seu comportamento.

O psicólogo pode fazer uso de testes psicológicos coerentes com sua abordagem de atuação, desde que domine a forma de aplicação e interpretação dos dados. Existem muitos profissionais especializados na aplicação de instrumentos técnicos específicos e eles podem ser solicitados para esclarecer algum diagnóstico diferencial. Se um instrumento é mal aplicado ele pode perder sua eficácia para os fins diagnósticos e desorganizar o plano terapêutico. É sempre importante que o psicólogo busque informações adicionais quando não possui clareza do contexto diagnóstico, trabalhe em parceria com psiquiatras que podem estar intervindo com medicações que afetam o comportamento alvo do tratamento. A medicação é uma variável importante que proporciona alterações comportamentais que não são provenientes de técnicas aplicadas em consultório. Alterações nas dosagens das substâncias prescritas, alterações das substâncias ou retiradas devem ser cuidadosamente avaliadas pelo psicólogo, pois podem alterar a avaliação e condução do tratamento.

Rosana Portes de Miranda – CRP 08/11427

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Reportagem da BBC - Por que os jogos viciam

Psicologia por trás do sucesso de jogos como ‘Candy Crush’



Foto: Candy Crush
Jogo em diversas plataformas aumenta probabilidade de vício
Sobre o tabuleiro se pode ver dezenas de doces diferente. A tarefa é juntar os que tem a mesma cor, mas há obstáculos e truques para conseguir ao longo dos 400 níveis. Muitos passam incontáveis horas jogando e alguns chegam a gastar centenas de dólares com isso.
Candy Crush Saga, o jogo mais popular da história do Facebook, é jogado mais de 600 milhões de vezes por dia, por 50 milhões de usuários.
Ele apareceu no vídeo mais recente do famoso cantor sul-coreano Psy, foi o jogo mais baixado em dispositivos Apple e Android nos últimos meses e, para milhares que se manifestam em blogs e redes sociais, é um vício irresistível.
Há quem afirme que seus antecessores são Tetris e o jogo da cobra dos celulares Nokia, mas seu parente mais próximo é Bejeweled, de 2001, que consiste em ordenar diamantes da mesma cor.
Lançado em novembro de 2012 e desenvolvido pela empresa King, o Candy Crush Saga gera mais de US$ 600 mil (R$ 1,3 milhão) ao dia ─ segundo dados não oficiais ─ através das "ajudas" que os usuários podem comprar para passar de níveis mais difíceis.
Os criadores insistem que é possível completar o jogo sem pagar nada, mas acredita-se que as ferramentas sejam fonte de milhões de dólares para a empresa, que não revela números.
Como em muitos jogos do tipo, a tarefa do Candy Crush parece simples: ordenar os elementos e passar de nível. No entanto, ele é feito com características diferentes para estimular o vício nos jogadores.

Tarefas incompletas


Foto: Candy Crush
Cifras não oficiais dizem que jogo fatura US$ 600 mil por dia
Para o professor de psicologia e ciências cognitivas Tom Stafford, da Universidade de Sheffield, na Grã-Bretanha, o vício em Candy Crush se relaciona a um fenômeno psicológico chamado efeito Zeigarnik.
O psicólogo russo Bluma Zeigarnik dizia que os garçons costumam ter uma memória impressionante para lembrar dos pedidos, mas só até que os cumprem. Uma vez que a comida e a bebida são levadas até a mesa, eles se esquecem completamente de algo que sabiam momentos antes.
"Zeigarnik deu nome a todos os problemas em que uma tarefa incompleta fica fixada na memória. E Candy Crush gera uma tarefa incompleta", disse Stafford à BBC.
Cada tabuleiro ─ ou cada nível ─ é uma tarefa que o jogador sente a urgência de resolver, como acontece com jogos de perguntas ou dúvidas que aparecem em uma conversa e que é preciso ir à Wikipedia imediatamente: a pessoa não descansa até que saiba a resposta.
Mas o Candy Crush dá aos jogadores cinco vidas por nível e, se elas acabam, é preciso esperar 30 minutos para voltar a jogar. É meia hora durante a qual o problema fica sem resolução.
"A lógica dos 30 minutos reforça a psicologia de que você tem que jogar todos os dias", afirma Jude Gomila, da consultora de videogames Heyzap.

Hospedagem no Facebook


Foto: Candy Crush
Candy Crush tem mais de 400 níveis e nunca se volta ao primeiro
O jogo é hospedado pelo Facebook, o maior site de rede social do mundo, mas também está em todos os dispositivos da Apple ou com sistema Android, o que permite parar de jogá-lo em uma plataforma e retomá-lo em outra.
Por isso, muitos o defendem com o argumento de que "(o jogo) nunca te deixa sozinho".
"É o primeiro jogo que realmente interconecta diferentes plataformas. Se você fica sem bateria no iPad, pode ir para o celular e, se cansa do celular, pode ir ao computador", diz Gomila.
Os jogadores podem compartilhar não somente seus resultados no Facebook, mas também ferramentas e vidas. Assim que a pessoa publica seus resultados, pode ver a comparação entre seu progresso e o de seus amigos na rede social.
"Não há nenhum prêmio neste jogo além da satisfação de suspeitar que suas habilidades para juntar doces são maiores que as dos seus amigos", diz o crítico cultural June Thomas, da revista eletrônica americana Slate.
O vício em Candy Crush deu origem a uma série de piadas na internet, mas os diversos casos nos últimos anos de adolescentes que morreram após longas jornadas de uso de videogames provam que a ludomania (vício em jogos) é um problema sério.
Nas redes sociais já circulam fotos de um suposto centro de reabilitação para viciados em Candy Crush ─ uma piada que diz muito sobre o alcance do fenômeno.


fonte: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/08/130806_candy_crush_dp_cc